... quando abro a minha caixa de correio e encontro panfletos de imobiliárias enfio na caixa de correio do vizinho mais antipático, na esperança de ele fazer um bom negócio imobiliário...
segunda-feira, 24 de fevereiro de 2025
segunda-feira, 17 de fevereiro de 2025
A Bridget Jones também tem papos debaixo dos olhos (e ainda bem)
Atenção: contém spoilers
Nunca fui fã do Sexo e da Cidade.
Tentei ser, juro, para parecer da malta fancy e urbano-coisa e moderna do início dos anos 2000. Mas aquilo nunca me representou, não só porque a distância entre Alcabideche e Manhattan é colossal, como estudar no ISCTE à custa de empadas, mini-quiches do bar do Sr. António e minis estava um bocadinho longe de se se beber cosmopolitans com amigas em Nova Iorque e ainda porque, pronto, eu vestia Zara e calçava Doc Martens e isso assemelhava-se tanto aos oufits da grupeta como a minha cara ainda cheia de borbulhas ao rosto esplendoroso da Sarah Jessica Parker.
Dizia eu que nunca fui Sex and The city team, pelando-me por séries da Britcom como "Absolutamente Fabulosas" ou " A Vigária". Entre o glamour e o trash vejj-me sempre a mergulhar ferverosamente na porca miséria.
Por isso, a primeira vez que vi "Bridget Jones", não sendo o filme nenhuma obra prima, rapidamente se tornou num filme da minha vida. Humor auto-depreciativo, comédia física e todos os clichés que adoro, porque uma pessoa, aos 20 e tal anos, quer ir ao cinema para adivinhar o guião e confirmar a sua perspicácia, não para ter surpresas nem reflexões metafísicas.
Assim, quando a Ana -com quem já vi todos os Bridget Jones anteriores (tem quase 13 anos: não me julguem!)- me desafiou para irmos ao cinema ver o novo filme fiquei num excitex.
Quando saí disse-lhe logo "ai, filha, finalmente! A Bridget Jones também tem papos debaixo dos olhos" e olhem- aguentem-me!- soube-me pela vida ver que a Bridget Jones envelheceu, não só eu, não só a actriz mas, especialmente, a personagem.
E, de repente, eu ali: com menos graça, mais consciente e prudente, menos auto-centrada, com toda a culpa materno-judaico-cristã que assiste à maioria das mulheres da minha idade, a achar graça aos Daniel desta vida mas a saber o exacto lugar deles, a deixar-se surpreender pela vida mas conhecendo os seus próprios limites e- mais importante- a estabelecê-los, a dizer que não, a saber o que não é para ela e a prosseguir. Madura, cansada, menos eufórica e mais solitária, mais confiante mas ainda assim com aquela dose de incerteza (não insegurança, incerteza mesmo) de quem vive coisas pela primeira vez.
Bridget, na meia idade, continua a representar a minha geração. Pelo menos a das suburbanas, que vivem em terras como Alcabideche, comem comida congelada porque estão exaustas, vestem C&A e calçam ténis rasos porque têm pressa de viver as múltiplas vidas entre família, casa, trabalho e tudo e tudo, para além do ideal adulto de se brindar aos fins da tarde com Cosmopolitans.
Bridget Jones is fucking alive! As well as us!
sábado, 15 de fevereiro de 2025
Ob-la-di, ob-la-da, life goes on, brah...
Eu tenho sempre boa intenção. Mas depois mete-se a vida, essa talarica.*
Primeiro veio o aniversário de namoro e uma escapadinha surpresa a Madrid. Tinha intenção de blogar desde Madrid (dude, eu sou a pessoa que ia de férias semanas seguidas e blogava todos os dias com novidades e roteiros e textos escorreitos e organizados e divertidos e tudo e tudo) mas depois meteram-se as visitas aos museus, a descida do Rastro, a invasão a mini galerias refundidas e a livarias excêntricas, mais aquele restaurante incrível com 20 qualidades de ovos rotos, a pastelaria de charme onde comprei um praxinoscópio de presente para o Rui e ainda o bar que era uma antiga redação de jornal e passeios de mãos dadas ao sol de inverno e, quando vi, já era.
Voltei para Portugal e aqueles três dias de férias sairam-me caros com muito trabalho por recuperar e uma activadade intensa na associação (acho que já aqui disse que sou Presidente da associação e todos os dias me chicoteio pela ideia peregrina em ter assumido um compromisso que representa, praticamente, um segundo trabalho a tempo inteiro). Ando realizada, já se sabe, mas a realização não repõe horas de sono nem o desgaste do corpo. Podre, sou uma mulher podre.
Ainda fui ao cinema ver o "Ainda estou aqui" e queria ter vindo aqui escrever a minha opinião mas, depois, quando pisquei os olhos, era fim do mês. E acho que fiquei com uma tendinite, porque não tinha posição para me deitar. E morreu o pai de uma colega. E a miúda teve pausa de final de semestre, mais notas e, claro, como me ocorreu que era boa ideia aceitar ser a representante dos pais da turma da Ana ainda houve reuniões na escola. A 31 de janeiro fiquei com uma febre desgraçada mas depois meteu-se o ano novo chinês (que, btw, este ano estava uma bela caca lá na Alameda) e no fim de semana a seguir o Rui fazia anos. E a minha mãe no dia a seguir. Já avisei a Ana que quando arranjar uma cara metade tem que filtrar se não faz anos perto de mim nem do pai, que isso é logo um factor de exclusão. E também avisei que com pais psicólogos é provável que lhe queiramos aplicar umas provas psicométricas, para termos a certeza de que não acaba casada com um traste ou um eleitor do Chega, que é mais ou menos a mesma coisa.
E pronto, o Rui fez anos e não queria "fazer nada de especial", o que significou que fomos almoçar a um bistrot grego e passar a noite a um hotel com spa e, claro, podes tirar a pobre das barracas mas não tiras as barracas da pobre, eu e a Ana encafuámo-nos na piscina quentinha, e depois na sauna e à saída da sauna eu já estava meia grogue, mais jacuzzi e- não perguntem como- ainda passámos num LIDL outlet na margem sul, com centenas de pessoas às compras, que só justifico porque estava já praticamente sem oxigénio no cérebro. A minha mãe comemorou o aniversário no dia seguinte e o jantar foi cá em casa e limpámos a mansão e cozinhámos prato de peixe e carne e ainda fizemos sobremesa e eramos quinze à mesa e eu já estava mais para lá do que para cá.
A modos que passei o domingo a dormir non stop, achava-se que era de cansaço, até porque eu sou a pior a ouvir o meu corpo que ou o gajo fala um idioma que eu não compreendo ou sou eu que sou surda mesmo, mas quando acordei na segunda eu já não era eu, e o meu corpo lá terá achado um espacinho na minha agenda para, licencinha, me oferecer um febrão a sério e me mandar para as urgências.
E aqui estou, com uma pneumonia, obrigada, como têm passado? Parece que saunas no inverno não são boa ideia- disse-me o médico- Que as bactérias fofinhas adoram copular no quentinho e uma decidiu que uma viagem ao meu pulmão esquerdo era praticamente um retiro espiritual e ali ficou num shanti shanti. O antibiótico é de uma boa casta, acredito que mate tudo o que se mete no seu caminho, na minha cabeça vem sempre a ideia dos bonecos do Era uma Vez a Vida, mata tudo,já disse? Até a minha flora intestinal e a modos que, sim senhora, estou melhor dos pulmões mas os meus intestinos e estômago estão uma porca miséria.
Eu bem que queria blogar, juro-vos. Mas entretanto uma deputada de extrema direita decidiu ofender a comunidade de pessoas com deficiência e eu estive obcecada a spamar todos os endereçoes de todos os deputados da Assembleia da República com uma nota de repúdio que preparámos lá na Associação. E depois- hoje- meteu-se o dia dos namorados e quando estava a sair do carro, abri o porta bagagens e quando o fechei não vi que o Rui tinha metido o nariz onde não era chamado e fechei-lhe com a porta na tola, a modos que o incrível fondue que tinhamos preparado foi comida à sombra de um novíssimo e a estrear segundo lenho na testa que já levou pontos colados, ainda não eram nove da noite.
Desconfio que, nas urgências hospitalares, me irão ofecer um cartão cliente frequente. Às tantas quando tiver dez carimbos oferecem-me uma garrafa de soro. Ou uma arrastadeira, que por acaso, agora era o que me dava mais jeito agora.
Na sexta que vem volto à Assembleia da República, pois serei nomeada para uma coisa importante na área da deficiência. Estou mortinha por me cruzar com a senhora deputada da extrema direita, até porque toda a gente conhece a minha elevada maturidade.
Entretanto, prometo que volto a blogar. Só não me consigo comprometer quando. A vida é uma talarica*, já me diz a minha filha.
[* talarica é a nova versão teen para profissional do sexo: adoro a expressão!]
quinta-feira, 16 de janeiro de 2025
Update: a cadela Luna
Agendámos grooming (para vocês verem ao que eu cheguei) para a minha cadela.
Recebemos sms de confirmação a dizer que a Sónia nos esperava na loja às x horas para o banho e a tosquia higiénica da Luna.
Reação em uníssono e imediata minha e do Rui ao lermos a sms:
"Ohhh, 'tadinha da Sónia!"
É muito calminha, obrigada.
segunda-feira, 13 de janeiro de 2025
Casa e Mundo. Ou Mundo e Casa. Tanto faz.
Entramos nos quartos de hotel onde permaneceremos um par de dias e tu começas a tirar da mala todas as peças de roupa e a pendurá-las, meticulosamente, no roupeiro. Eu sorrio, olhando, de soslaio, para a minha mochila, onde a roupa permanece sempre durante a estadia, seja por que período for.
Nas cidades que visitamos em escapadinhas rápidas tu, logo no primeiro dia, decoras mapas, estudas caminhos e direções e orientas-te como se aquela (esta) tivesse sido sempre a nossa casa. Eu sorrio, porque quero saber pouco dos caminhos, gosto de me perder em itinerários improváveis e de descobrir, aleatoriamente, destinos com os quaia nunca nos cruzaríamos, porque nao vêm nos guias, nos mapas ou nos planos dos outros.Nos bairros que calcorreamos, de braços dados, fingimos que somos nativos, tu brincas e dizes sempre a caminho dos hotéis ou casas que alugamos parcos dias, em Madrid, Sevilha, Paris, Roma, Londres, Veneza ou Florença, que estamos no "nosso bairro".
Eu tiro-te do caminho, meto o nariz em lojas solidárias, ateliers de arte e design em garagens e caves, livrarias de bairro, lojas de antiguidades e mercados de rua, chamo-te a atenção para detalhes quase imperceptíveis nas vielas e arrasto-te para atalhos que não lembram a ninguém, mas que nos fazem sempre descobrir mundos insondáveis e pessoas maravilhosas.
Talvez, como há 26 anos, o segredo de sermos felizes se resuma nesta coisa boa e tão fácil de fazeres "casa", ninho ou morada em qualquer sitio onde me leves contigo e eu transformar em Mundo qualquer viela, beco ou atalho por onde te arraste comigo.
sábado, 11 de janeiro de 2025
Diz-me que és mãe de uma adolescente sem me dizeres que és mãe de uma adolescente
Pobres dizendo pobrices
Acordo com herpes labial no lábio superior em dois sítios.
A minha filha cruza-se comigo no corredor, olha-me com ar de blheeerck, disfarça para não levar uma berlaitada e atira com um:"O herpes é o botox dos pobres, não achas, mamacita?"...
sexta-feira, 10 de janeiro de 2025
Há um episódio da Princesa Sofia
Há um episódio da Princesa Sofia em que ela aconselha à amiga a pensar em coisas felizes quando ela se sente muito triste ou zangada.*
Qual é a vossa música-tesourinho-deprimente*?
quinta-feira, 9 de janeiro de 2025
Eau d'velhice
Dói-me a omoplata há imenso tempo.
Tomo um banho quente, visto o pijama e Mámen vem dar-me um abracinho:
"Cheiras bem! Que perfume é esse?"
...
...
...
Era um Transact que tinha acabado de colar no costado.
Fui signatária de uma carta aberta* que teve hoje projeção nos media
Pergunta-me a minha filha, com os olhos muito arregalados:
"Tu és UMA PERSONALIDADE, mãe?!"
Updates #a minha tia
Mesmo jogo que contei aqui (link). Tem escrito no post it na testa "João Baião" e já perguntou se era um apresentador de televisão e já lhe respondemos que sim. "Goucha"? Não. "Júlio Isidro"? Não. "Vasco Palmeirim"? Não. "Cláudio Ramos?" Não.
Corre os nomes todos, menos o certo e faz um sorriso de eureka: "É o Hélder Reis! É o Hélder Reis!"
Ninguém sabe quem é o Hélder Reis e responde muito admirada, como se o dado fosse de cultura geral:
"Por amor de Deus: é o melhor amigo do Goucha"
Não acertou no Baião mas sabe tudo sobre... o Hélder Reis!
Está óptima, obrigada!
quarta-feira, 8 de janeiro de 2025
Ana, a desportista
12 pinhões para o Ano Novo
Há uma memória muito antiga que tenho em que sou pequena e encontro-me a sair da creche, vestida com um bibe verdade aos quadradinhos com bolsos largos, acompanhada de todos os meninos da sala da Teresa, que era o nome da minha educadora.
Dirigimo-nos a um pinhal que havia ali mesmo à beira e sentámo-nos no chão com pedras a bater sobre pinhas caídas e depois, cada um na sua, íamos sacudindo aquela fina pele que os cobre e deliciavamo-nos com os pequeninos pinhões.
Eu que sempre tive uma motricidade fina sofrível deparava-me com visíveis dificuldades na cacetada das pinhas usando os pequenos calhaus e a Teresa abeirava-se de mim e exemplificava, tentando ensinar-me a melhorar a estratégia, mas sem me substituir. Às tantas a Diana, que era uma menina um ano mais velha, sentou-se à chinês ao meu lado e foi-me ajudando a dar pedradas nas pinhas, para que eu pudesse comer mais pinhões.
Comemos, muitos, imensos, sentadas lado a lado, as duas. Ela menos do que comeria sozinha. Eu mais que teria comido se ela não me tivesse vindo ajudar. Mas comemo-los a rir na companhia uma da outra.
Que em 2025 tenha a sorte de ter quem me exemplifica e ensina sem me substituir. Que em 2025 tenha a bondade de ter quem se senta ao meu lado a ajudar-me a sorver os pequenos prazeres da vida.
Que em 2025 tenha a maturidade de não desistir, de ser humilde e aceitar ajuda e de não sentir culpa de cada vez que coma um pinhão que a vida me oferecer.
E que não me faltem bolsos na bata, caminho em pinhais, pinhas no chão, pedras afiadas e o prazer de comer pinhão a pinhão.
Por estes dias
Já não blogo do meu local de trabalho, do meu gabinete corporativo em Miraflores. Nem do telemóvel, com urgência, na minha hora de almoço em mesas solitárias de restaurantes, como fazia quando trabalhava em consultoria e passava a vida entre clientes. Já não trabalho em Recursos Humanos nem sou anónima, por isso, já não posso escrever sobre os CV que recebia com endereços de emails como "coxaspoderosas@hotmail.com" ou relatar entrevistas inusitadas, como aquela vez que entrevistei um senhor ex-combatente do Ultramar, amputado de um braço, que me esticou o seu gancho para me dar um aperto de mão e eu ia tendo um fanico.
Não consulto o sitemeeter nem o blogómetro. Nem sei, hoje, para que me interessavam os números. Nunca ganhei um cêntimo com este blog e, embora a maioria das minhas amigas diga que fui uma burra por isso, acho que fiz o que sempre me pareceu certo. Fazia-me bem ao ego. Escrever é, quase sempre, um exercício de ego. Sou como toda a gente.
Já não há uma primeira liga de blogs e eu gosto disso, mesmo que sempre tenha feito meio que parte dela, nunca fiz totalmente parte dela. Sempre fui uma outlier e gosto dessa posição indefinida. Nos blogs mas também na vida. Não gosto de pessoas que são sempre muito consistentes, muito rígidas, muito uma coisa só. Fui uma multiplicidade de coisas. Vivi mil vidas. Ainda sou e ainda vivo.
Não há pressão para escrever sobre o tema do dia, ser a primeira a deixar um ponto de vista inédito ou andar a trocar cromos em caixas de comentários. Aprendi que nem sempre preciso de dar a minha opinião. E que, muitas vezes, entre ter razão e estar em paz, o melhor é sempre estar em paz. E também aprendi que nem toda a ação tem que ter uma reação. E que o silêncio também é muitas vezes uma forma de voz.
Já não vou a todas. Escolho as batalhas, criteriosamente, e aprendi a reservar a minha energia para apenas algumas guerras. Aquelas que quero mesmo travar. E nas quais faço a diferença. Poupo-me. Poupo-me muito.
Já (ainda?) não há hate blogs nem malucos à solta. Gosto dessa sensação não persecutória que isso me permite neste exercício de escrever.
Escrevo, agora, sempre quando chego do trabalho nada glamouroso mas que é uma incrível fonte de realização. Venho almoçar a casa, com mámen, e esse é dos maiores luxos que conquistei. Almoçamos comida caseira que preparamos na véspera à noite, sentados e com vista para o jardim, sem correrias, enquanto conversamos. Temos tempo para passear a cadela que cumpre a sua função e representa um grande objecto emocional nesta fase da minha vida, em que a miúda está a crescer e precisa menos de mim. Precisamos sempre que precisem de nós? Estou a descobrir.
Escrevo sempre sentada no sofá, com tempo e disponibilidade. Reservei uma slot de tempo do meu dia para isto. Começo por ler os comentários que me deixam e que me provocam um excitex do camandro (comentem, por favor!).
Depois escrevo o que me apetece, como este texto, e sinto aliviada a necessidade de deitar cá para fora estes pensamentos soltos. A gata fica ao meu lado a receber o calor da fonte de alimentação do cumputador. Os gatos nunca precisam de nós: toleram-nos. Esta- coitada- lá me tolera a mim e à cadela, sempre com ar enfastiado. Havia muito a aprender com os gatos.
Já não cravo imagens ao Prezado. Faço-as todas utilizando a inteligência artificial e isso diverte-me imenso.
O fim do anonimato inibiu-me de escrever sobre muitas coisas giras, da forma como gostava de escrever sobre elas. Da forma como as penso e interpreto. Rio-me muitas vezes para dentro ou em círculo fechado de amigos. Tenho, agora, que pensar como as posso reescrever de forma a não melindrar ninguém. A Ana lê este blog e isso, parecendo que não, muda tudo. O que vale é que, aos 12 anos, ainda me acha graça.
Tenho tido uma pica enorme neste regresso. Não sei até quando. Mas aprendi que a vida é uma sucessão de presentes. E que "logo se vê" é a resposta certa para quase tudo o que nos acontece.
Obrigada por estarem por aí. Mesmo.
Foram dias e dias. E meses e anos no mar. Percorrendo uma estrada de estrelas. A stalkar.
Há um episódio de Modern Family em que a DeDee, ex-mulher de Jay, morre.
DeDee não é uma personagem muito querida, até porque Gloria, a jovem e sexy mulher actual de Jay, sente-se ameaçada pela mãe dos filhos mais velhos do marido e, na verdade, a Gloria é a personagem estrela de toda a série.
Ora, neste episódio específico, e depois de muitas peripécias ao longo de várias temporadas, a DeDee morre. Quina. Kaput.
E antes de morrer a Dedde manda fazer uma figurinha dela em pvc que oferece aos netos para que não se esqueçam dela. Acontece que, durante todo o episódio, a figurinha da agora falecida é esquecida, pousada, encafuada em vários sítios inusitados, sendo que, inadvertidamente, Gloria apanha vários cagaços ao cruzar-se com a bonequinha de plástico da ex-rival que está, literalmente, em todo o lado.
Sou suspeita- que adoro a trama de Modern Family- mas o episódio divertiu-me, à época, horrores.
Até que o esqueci mas só até este Natal, em que os meus sogros vieram passar as festas connosco. Porque... a minha sogra decidiu fazer-se acompanhar da sua própria DeDee.
No primeiro dia, ao pequeno almoço, esqueceu-se dela na consola da entrada e eu, acabada de sair da cama, bati com os olhos na senhora, ali, pousada, a fitar-me. Sorri, intrigada sobe o que raio fazia aquela figura ali.
No segundo dia, já me tinha esquecido da senhora, quando sentada à mesa de jantar, viro-me para trás para apanhar um saca-rolhas, e ali está ela em cima da estante, armada em Mona Lisa a micar-me.
Fingi não ter reparado, não tossi, não mugi, não perguntei nada. Aquele mistério haveria de se desvendar.
E, durante quinze dias, entre fases em que a minha sogra via reels e rezava em simultâneo porque o multitasking a assiste, a porra da senhora estava em todo o lado: na cozinha, na sala, na casa de banho social, na minha casa de banho, no bolso da minha sogra, na mala da minha sogra, no parapeito da janela da sala, em cima da escrivaninha, no quarto da Ana, quase que podia jurar que a cheguei a ver dentro do microondas. Everywhere. A fitar-me, a micar-me, a stalkar-me.
Acabaram as férias de Natal e a minha sogra voltou para a terra.
Não sei como vos dizer que sinto um certo vazio face ao seu desaparecimento. Mas depois lembro-me que ela era exactamente assim:
Não é medo: é respeito.
Mentira: é medo mesmo, caredo!
terça-feira, 7 de janeiro de 2025
Ajuda do público
E agora?
Desbloqueio rubricas que estão em rascunho (as Quadripolarizações?)?
Transfiro para aqui posts que estão perdidos nas redes sociais?
O que mantenho das rubricas anteriores?
Quem me estará a ler em 2024? Existirão leitores do início e dos primórdios do blog?
Haverá por aqui pessoas pela primeira vez?
O que gostariam mesmo de ler estas pessoas?
Sim: vocês!
[Se isto se aguentar até Dezembro fica aqui a promessa pública do regresso do PPC]
O mundo divide-se entre...
... as pessoas que são orgulhosamente proprietárias de uma airfryer e as outras.
segunda-feira, 6 de janeiro de 2025
Updates #Mámen
Está benzinho, obrigada.
Piaçaba de ouro
A pessoa volta e é muito comentário a evocar o post do IKEA.
E o IKEA nunca deu o devido valor, nem um piaçaba de reconhecimento, nada.
A modos que é isto: a minha carreira na blogosfera resume-se a um post mal cheiroso.
Porca miséria.
O momento em que te sentes velha pela primeira vez.
No outro dia vi no threads a pergunta: "Quando foi que te sentiste, pela primeira vez, velha?".
Fiquei a remoer naquilo algum tempo. Terá sido quando me trataram por "senhora" pela primeira vez a atenderem-me numa loja? Quando me morreram os meus avós e deixei de ser a menina de alguém? Quando comecei a apreciar vinho tinto? Quando passei a ser "a mãe" e me despojaram do meu nome próprio assim que a minha filha nasceu e as educadoras, as pediatras e as pessoas que gostam mais de crianças que de adultos me passaram a tratar assim? Quando passei a não suportar a ideia de uma noite passada numa discoteca ou de um bar barulhento? A preferir passagens de ano em casa? A usar fato de banho em vez de bikini para disfarçar a barriga pós-parto? Quando passei a temer abrir a caixa do correio porque são só cartas com contas para pagar?Quando comecei a dar conta que me nascem cabelos brancos, as pálpebras descaem, tenho olheiras debaixo dos olhos e as minhas bochechas cedem à gravidade? Quando me convidaram para o jantar de 25 anos do fim de curso? Quando percebi, há dias, que este ano vou ser mãe de uma filha verdadeiramente adolescente?
Não. Foi hoje quando percebi que já não tenho dores apenas numa estação do ano mas em todas. Na Primavera as alergias e a febre dos fenos, espirros e o camandro. No Verão a tensão baixa, as coxas assadas e a sensação de desmaio constante. No Outono o início dos resfriados, constipações e gripes várias. E, claro, no Inverno o cliché das dores musculares, os joelhos a rangerem e os ossos enregelados.
Não sei se agora, também como com os meses do ano, se escrevem as estações do ano em letra minúscula. Eu não escrevo, quero mais que vão para o Inferno.
Sou uma pessoa idosa de forma consistente nas 4 estações. E no manguito constante ao uso do acordo ortográfico.
Aguentam-me?
Morreu a Adília.
Oiço no telejornal que a Adília Lopes morreu, enquanto ponho a mesa, pratos perfilados, os meus sogros de visita cá em casa, o Rui a chamar-me da cozinha "não te esqueças de levar os guardanapos!", a Ana a discutir com a cadela, a minha sogra a perguntar-me se pode usar a casa de banho do meu quarto, a reportagem com a cara da Adília, eu a tentar ouvir a notícia mas sem querer escutar, o meu sogro a ir buscar os guardanapos, eu estarrecida, congelada, "pode antes ir à casa de banho social? É que a minha casa de banho está desarrumada!", a cadela a ladrar para a Ana, "pões a base da panela na mesa?", a Ana a rir "a mãe odeia panelas na mesa: mete numa travessa, pai!", a minha sogra a arrastar-se, contrariada, para a casa de banho social, os guardanapos a serem dobrados por mim roboticamente, a Adília- agora morta- a recitar um poema, naquele jeito de dona de casa lisboeta, uma personagem da Alice Vieira da minha infância, a mãe da Maria João do livro "Úrsula, a Maior", a cadela a saltar em meu redor a pedir atenção, a Ana a juntar-se à sala "onde está a avó?", a minha sogra a responder "Oh Diabo, deixei cair um xanax no chão da casa de banho e a gata acabou de o comer!", a mesa posta, o meu sogro sentado à cabeceira, a Adília morta, a travessa na mesa, a gata drogada, eu incrédula, em negação.
Houve muitos dias em que a Adília escreveu para mim. Sobre mim, que sou mortal e desinteressante, igual a ela.
De um xanax preciso eu.
domingo, 5 de janeiro de 2025
A revolta dos blogs #oMovimento
E quem mais, em 2025, ainda tem um blog activo ou vai reactivar o seu velho blog?
Chutem-me os vossos links na caixa de comentários para eu actualizar ali na minha barra lateral. Váááá!
Updates # a minha mãe
Ontem a minha tia celebrou mais um aniversário e o jantar foi cá em casa.
No final da noite, decidimos jogar um jogo que gostamos muito: cada um escreve um nome de um personagem famoso num post it e cola na testa da pessoa sentada ao seu lado.
Depois, um a um, vamos fazendo perguntas fechadas (ou seja, cuja resposta possa ser apenas "sim" ou "não") até descobrirmos "quem somos".
Primeira rodada, antes mesmo do jogo começar, a minha mãe agarra muito discretamente no telemóvel, como quem vai ver se caiu alguma mensagem, ouve-se um click do obturador da câmara, pousa o telemóvel, com a maior cara de pau.
Eu, que a topo a léguas, percebo tudo: tirou uma selfie para descobrir o nome que tinha escrito no post it na testa para ganhar logo à primeira, e todos a admirarmos pela profunda perspicácia.
Está igualzinha, obrigada.
Acabei o ano a arrumar a arrecadação
Peluches do Noddy, da elefanta cor-de rosa de cujo nome já não me lembro, da Ursa Teresa e do Mafarrico. Mershandising variado dos vários festivais do Panda e porcarias várias com a cara da Pipa porque a Ana nunca gostou da Clarinha. Nenucos, roupinhas dos Nenucos e carrinhos dos Nenucos e a miúda nem nunca curtiu por aí além bebés e jogo simbólico com bebés. Todo um manancial de vestidos de princesas e bonecas da Elsa e da Ana e o dinheiro que congelei para todo o sempre em porcarias da Frozen. Tendas, casinhas, yourts e cheira-me que, se um dia, a miúda for uma nómada hippie fui eu que impulsionei a trend. Camisolas da Vampirina, malinhas da Princesa Sofia, iô-iôs da LadyBug e walkie-talkies do Gato Noir. LOLs e o atentado ecológico de toneladas de plástico em bolas redondas onde vinham as bonecas, cada uma ao preço de uma caixa de camarão. Barbies, barbies, muuuuuuitas barbies, casas das Barbies, carros das Barbies, a caravana das Barbies a esperança que um dia venha a ter uma neta para amortizar a fortuna gasta em Barbies. Unicórnios em overdose: peluches, roupas, my little poneys, livros, miniaturas, um busto de unicórnio para a parede tipo aqueles bustos de veados que os caçadores malucos americanos têm nas cabanas. Portas de casas de fadas e miniaturas variadas de mobiliário de casas de fadas. Trolls, cadernetas de cromos dos Trolls, bandoletes com organza a imitar os cabelos dos Trolls. Harry Potter, varinhas, cachecóis, bloquinhos de folhas, canetas e lápis e mais umas cenas de borracha com caras de Harry, do Ron e da Hermione com um buraco e que se enfiam no topo dos lápis. Wednesday, tote bags da Wednesday, sweatshirts da Wednesday, gorros da Wednesday.
Tenho a história do imaginário de 12 anos da minha filha encafuada em caixas de plástico.
E, de repente, a Taylor Swift já não me parece tão mal.
O Mundo divide-se...
sábado, 4 de janeiro de 2025
Revivalismo blogosférico
Faria, este ano, 20 anos desde a criação deste blog. Arquivei mais de 8500 posts para escrever este aqui, pela primeira vez, em muitos anos.
Às vezes falávamos entre nós - as dinossauras da blogosfera- que um dia voltaríamos. Nunca voltámos por preguiça, falta de vontade, inércia ou descrença de que este formato voltasse a interessar a alguém. Talvez só nos interessasse mesmo a nós, que escrevíamos. Uma espécie de ego-dependência revivalista.
Depois outras vezes- muitas- lá vinham pessoas a comentarem nas minhas redes sociais de que tinham saudades do blog. Eu lia e ria-me, enternecida, e na dúvida sobre se as pessoas tinham, de facto, saudades do blog ou saudades de quem eram e de quem eu era quando liam o blog.
Não tenho certeza de que as redes sociais tenham humanizado as relações virtuais.
Quando aqui comecei a escrever, há 20 anos,- antes do facebook, dos tuc-tucs, do spotiffy, do meu casamento, dos robots inteligentes, da morte dos meus avós e dos meus tios, das influencers, do tik tok, da netflix, da skincare, do fim do anonimato dos blogs, das unhas de gel e das extensões de pestanas, da inteligência artificial e da Ana- a internet era de acesso mais ou menos restrito, uma espécie de Conforama, Moviflor ou lojas de móveis de Paços de Ferreira antes do IKEA democratizar a decoração e todos nós termos mais ou menos as casas iguais, que é o que agora sinto quando abro as redes sociais.
Toda a gente sabe que a a Conforama, a Moviflor e as lojas de móveis de Paços de Ferreira são capazes de estar ultrapassadas e que muitos móveis são feios que doem mas, lá no meio, sinto alguma autenticidade na madeira que não é folha de contraplacado e não consigo deixar de admirar a durabilidade da mobília de pinho da sala da casa da minha tia que, não sendo moderna e cool, tem sobrevivido digna e impecável às várias estantes Billy das minhas diferentes casas ao longo destes anos.
Dizia eu que quando aqui comecei a escrever, há 20 anos, havia de tudo e para todos os gostos, muito bom, bom, médio, sofrível; real e ficcional, generalista e temático, divertido e deprimente, individual e colectivo. Mas era tudo muito mais real e humano: éramos pessoas que escrevíamos em blogs muito antes de nos empurrarem a ser chamados de bloggers, depois de criadores de conteúdos digitais e a milhas da ideia aterradora de sermos influencers.
Falávamos das nossas vidas, das nossas experiências, das nossas ideias e pensamentos, das nossas opiniões e indignações, muito antes de nos enviarem press releases e amostras para divulgarmos barritas de cereais, nos pedirem orçamentos para publicarmos posts com guiões encomendados por marcas, muito antes de percebermos que poderíamos vender os nossos blogs, como montras de marketing, e monetarizarmos a actividade de escrever como fonte de rendimento.
Tínhamos quase todas nicknames embaraçosos, éramos anónimas e não aspirávamos à fama, aliás, tudo o que mais temíamos era sermos descobertas, para não perdermos a liberdade de dizer que estávamos apaixonadas pelo nosso melhor amigo, que nos sobrava mês ao final do salário, que tínhamos crises nas nossas relações amorosas, que odiávamos estar grávidas, que o cão xixava em todo o lado e que só nos apetecia rifá-lo, que ouvíamos os vizinhos pinar e temíamos cruzar-nos com eles no elevador sem nos finarmos a rir, que o patrão era um cretino, a nossa mãe estava na menopausa e a nossa sogra era uma sem noção (e era um patrão abstracto, uma mãe generalista e uma sogra personagem-tipo que, para o efeito, não interessava saber quem eram efectivamente, nunca era sobre o patrão,a mãe ou a sogra: era só sobre a nossa visão da vida adulta).
As pessoas comentavam, algumas em anónimo, outras também com nicknames meio ridículos que hoje as envergonhariam, todas tinham que fazer login para nos comentarem (por que, entretanto, a maioria de nós, as que escrevia, deixou de aceitar comentários anónimos), muitas enviavam-nos emails compridos e bonitos, a dizer que se tinham identificado com o que havíamos escrito, outras a partilharem desabafos, e abrir a caixa de email e escrever requeria tempo e disponibilidade, não era simplesmente o vómito imediato de um comentário numa rede social.
Não tínhamos que tirar fotografias, editar luminosidades, fazer e editar vídeos com grwm e pranks: éramos nós, as palavras e os que, generosamente, nos liam (qual followers, qual quê?).
Éramos apenas pessoas reais, com vícios e virtudes e muito inocentes no uso da internet. Emissores, mensagens, receptores: a simplicidade linear da comunciação.
Também não sei se manterei o blog público porque antes não sabia para quem escrevia mas hoje sei que, em formato público, escrevo para muita gente para quem não quero. Acredito que é muito mais feliz escrever-se para desconhecidos que para conhecidos, porque nos dá uma sensação (talvez falsa, talvez errada) de que nos julgam menos, de que fazem menos juízos de valor; porque não corremos o risco de, no talho, a Sra. Maria nos confrontar com um "então, divertiram-se em Freixo de Espada a Cinta? Vi no teu instagram!" quando tudo o que queremos é apenas falar para o ar do maravilhoso que foi ver o Douro em Freixo de Espada à Cinta e não fazer small talk com a Sra. Maria.
Também não sei se voltarei a libertar alguns posts dos rascunhos (ou algumas rubricas, talvez) porque terei que as ler aos olhos de 2025. O Mundo mudou. Eu também. Logo se vê.
A Ana pediu no Natal passado um gira-discos. E depois no seu aniversário uma velha máquina de escrever.
"Para quê se tens spottify e ipad e tudo moderno, Ana?"- perguntei.
"Gosto de ouvir as imperfeições das músicas nos discos de vinil e o gozo que me dá escrever poemas carregando tecla a tecla na minha máquina de escrever, tão antiga, tão bonita, mãe..."
20 anos depois cá estou. Porque como a Ana gosto de imperfeições e de escrever, tecla a tecla.
Não sei se é o regresso dos blogs
Mas a minha parte está feita (Ouviste Sofia? Ouviste Jonas? Ouviste São João? Ouviste Luna? Ouviste Prezado?).
Feliz 2025!
Sejam gentis.
domingo, 29 de dezembro de 2024
Viver é resistir
Tenho passado os últimos anos num conflito interno sobre o que está na nossa ação e o que nos foge completamente ao controlo.
A minha experiência absolutamente empírica diz-nos que quase a totalidade dos acontecimentos resultam de factores externos que dificilmente controlamos. O que, na verdade, não é muito difícil de gerir por mim que odeio planear e que lido bem com o imprevisto, que sou flexível e adaptável em demasia e que giro muito bem a frustração. Ou talvez até seja porque o mecanismo de coping que arranjei para controlar tudo isto e não me maçar muito é desistir de controlar: assim a vida- essa cínica trágico cómica- já não me apanha desprevenida. Ou talvez apanhe, mas nunca muito.Continuo, por isso - ou apesar disso (ainda não descobri) - a odiar surpresas. Sei que parece horrível e desromântico mas um dia farei um clube das pessoas fritas como eu que odeiam e dispensam surpresas. Para surpresa já temos a vida.
O Jorge Palma fala nisto numa canção sobre esta coisa de se ser um optimista céptico e o Jorge Palma nem imagina mas todas as músicas que eles escreveu ou escreve são para ou sobre mim.
Esta coisa de formular desejos ou de fazer resoluções de ano novo tem-me parecido parva nestes últimos anos, para além de que é ridículo associar isto a passas (alguém gostará verdadeiramente de passas?) porque enfarde eu as passas que enfardar- ou vista na passagem de ano as cuecas da cor que vestir- nada faria prever as cirurgias aos olhos da minha mãe, o internamento e as dores chatas, os livros todos que me ficaram por ler, o frigorífico que só tinha 3 anos e pifou, o inundação na casa, as férias adiadas com a minha melhor amiga, a minha incrível falta de vontade de partilhar o que escrevo, os quilos a mais, o cabrão do cabelo quebradiço mesmo que eu não o pinte para o poupar, os problemas nos dentes da miúda mais a mudança de escola que tardou a acontecer e a culpa materno judaico-cristã, mais a guerra na Ucrânia e na Palestina, o Trump nos States, o horror da Pelicot, o aquecimento global e a vida.
Talvez tenha só concluído que viver é, sobretudo, resistir a estes caldos e belinhas da vida, às vezes socos e pontapés.
E responder com um pirete assim.
sábado, 28 de dezembro de 2024
Foi um Natal bom
Foi um Natal bom. Vamos recuar e relembrar primeiro que fui internada. E que não foi nada fixe mas não interessa, voltei para casa e para a lufa-lufa do trabalho e quando dei por isso era Natal.
segunda-feira, 25 de novembro de 2024
Feliz Ano Velho ainda está aqui
quarta-feira, 24 de julho de 2024
Limetree
A maior aprendizagem que se pode fazer na vida é saber lidar com o fim da vida. Primeiro o dos outros, sempre como projeção do nosso.
sábado, 15 de junho de 2024
New race
Ao princípio não foi simples. Eu tive medo mas achei que o Mundo e os astros estariam em sintonia com os valores com que te temos educado e que tudo se iria ajustar. Eu tive medo, já disse? Esta também é a minha primeira volta no carrossel da vida e muitas vezes nao consigo acompanhar o balanço e só fico tonta e nauseada. Tambem na tua educação. Principalmente na tua educação.
Acabou por nunca ser simples. O Mundo e os astros desalinharam-se muitas vezes. E os valores com que te temos educado mostraram que eram os melhores para ti, apenas e apenas se vivessemos num Mundo onde estes valores de compromisso, diversidade, humanidade, integridade e o respeito inabalável por quem se é, sem desvios nem vontade de existir em função das expectativas dos outros, de se ser fiel ao que se acredita sem querer ser o que o outro espera, esta maturidade no estabelecimento de limites, fossem universais. Não são.Pedimos muitas vezes que te ajustasses. Que flexibilizasses. Que nao levasses tão a sério os teus dogmas e as tuas crencas. Até que percebemos que nunca podemos pedir que deixes de ser tu em função do colectivo, da norma. Na verdade, nunca te educámos para a norma.
Nunca te desviaste do teu caminho. Essa rigidez que tantas vezes nos preocupa dá-nos o alento de acreditarmos que, de tudo o que de bom te ajudámos a ganhar, a tua integridade foi a nossa maior vitória. És inabalável. O orgulho que sentimos de ti.
Entraste com dez anos acabados de fazer. Corrias aos saltinhos para o portao, com a mochila maior que tu, cheia de nervos mas sempre com coragem e valentia.
No fim não foi fácil. Nunca foi fácil.
Hoje foi o ultimo dia e, no proximo ano, nao sabemos o que nos espera. Mas temos esperança que encontres a tua tribo. "Hoje estou felistre, mãe"-disseste de manhã. "Felistre" é o meu novo neologismo preferido. Eu diria ambivalente mas, na verdade, estou feliztre contigo: feliz pelo novo ciclo que nos espera, triste porque nunca foi fácil. Mas a vida é muito este equilibro entre a felicidade e a tristeza.
Hoje foi o ultimo dia de uma das tentativas do primeiro dia do resto da tua. Muitas te esperam vida fora. Nao e game over: é new race. May the odds be in your favor.
domingo, 2 de junho de 2024
O pior de ter filhos
O pior de ver os filhos crescer é ter que os deixar experimentar a dor. A tristeza. O desânimo e a frustração. A raiva e a desilusão.
E não poder estar lá para dar beijinho no dói -dói porque às vezes- quase sempre- o dói -dói é na alma e não está aqui ao alcance dos nossos lábios.
O pior de ver os filhos crescer é às vezes não ser tão claro explicares o funcionamento do Mundo e da vida, porque muitas vezes não há racional nem lógica no que acontece e coisas más acontecem a pessoas boas e coisas boas acontecem a pessoas que nem sempre prestam.O pior de ver os filhos crescer é já não conseguires delimitar o bem do mal com tanta clareza, de muitas vezes tudo o que ensinaste que é certo não os levar a lado nenhum porque há o contexto e os outros, e se a maioria escolhe o que tu consideras errado pois que é o errado que estabelece a norma. É teres que os ver aprender, pelos próprios meios, que as injustiças vão sempre acontecer e que muitas coisas que não estão certas vão ser normalizadas mas que é seu dever moral nunca as considerar "normais".
O pior de ver os filhos crescer é quereres que eles sejam aceites sem desvirtuarem os seus valores, sem abrirem mão da sua ética, sem prescindirem da sua liberdade individual mas que, muitas vezes, o caminho pode ser solitário para quem não cede à maioria, para quem pensa pela sua cabeça, para quem não deixa que o colectivo esmague o individual.
O pior de ver os filhos crescer é perceberes que só educaste aquela pessoa mas que não educaste o Mundo e que é no Mundo que aquela pessoa se vai mover e que terá que sobreviver.
O pior de veres os filhos crescer é perceberes que o teu colo já não chega para ser o coito na corrida da vida e que não podes colocar airbags em redor da existência daquela pessoa pequena e que crescer é duro e implica saltar de desconforto em desconforto, que descobrir-se quem se é já é duro, mas descobrir-se quem se é no Mundo é uma tarefa hercúlea.
O pior de ver os filhos crescer é perceber que eles serão cada vez mais do Mundo tentando travar que deixem de ser cada vez menos teus.
sábado, 23 de dezembro de 2023
O Mundo divide-se... (versão minhota)
... entre quem prefere aletria e entre quem prefere mexidos/formigos.
domingo, 3 de setembro de 2023
Dezassete
Amo-te.