segunda-feira, 16 de outubro de 2017

É um fogo que arde e nós a ver



Há um sentimento de impotência face às imagens. 
Há a evitação de não querer que o zapping nos faça confrontar com a violência das chamas, o som aflito dos gritos das pessoas, as suas expressões faciais e a desgraça ali, pousada aos nossos olhos, a pele quase a queimar de tanta aflição. Coração queimado. 
Ardem-nos os sítios onde fomos felizes, os locais das nossas raízes, os espaços que são agora apenas imagens nas fotografias imprimidas em álbuns não digitais. 
Há a negação e o medo de não querermos abrir o feed do facebook atropelada pela necessidade de sabermos dos que queremos bem. Já não nos interessa a terra, os pastos, as árvores, os terrenos, já não nos importa que a matéria fique reduzida a pós: queremos as nossas pessoas vivas. E bem. 
Não quero saber de esquerda nem de direita. Não quero saber de política na versão mesquinha da coisa. Não quero saber de rezas, de superstições, de crenças e de danças da chuva. Quero- genuinamente- que o meu país seja gerido por pessoas competentes, independentemente da sua orientação política. Quero que quem esteja na Protecção Civil ganhe tudo o que tem direito, tenha o salário que justifique a responsabilidade do seu cargo, mas quero que seja a melhor pessoa em Portugal para gerir a protecção civil deste país, a pessoa mais preparada e mais à altura do cargo e não o amigo do amigo, o que lambeu melhor as botas nas Jotas destes país ou o mais fofo e fresco nas Universidades de Verão dos partidos. Quero que quem esteja à frente dos serviços competentes para lidar com vida, saúde, educação estejam preparados como nenhuns outros, academicamente e em termos de experiência, que tenham aprendido com os melhores e os mais bem preparados, que tenham replicado boas práticas que viram e testaram noutros países, que saibam fazer o melhor. Não o seu melhor, isso já não basta. O melhor, o mais eficaz, o que resulta. 
Nunca tinha sentido de perto uma calamidade pública. Uma tragédia nacional. Que nos afecta a todos, um a um, porque todos conhecemos uma daquelas cidades, fomos felizes num daqueles locais, conhecemos pessoas que ali vivem, que ali nasceram, temos lá raízes, memórias, afectos. 
Somos nós que estamos a arder, reduzidos metaforicamente à insignificância do pó que não acreditamos que seja real à nossa volta, à volta dos nossos. 
Somos nós com o coração na quinta de Tondela do Zé António; na família de Mira na Ana Mingatos, da Neuza, da Catarina Domingues, da Clara, da Paula; na Vagueira da minha infância, na ponte de Vagos onde fui tão feliz, no arraial da Tocha ardido onde fizemos, juntos, tantas sardinhadas nas colónias de férias, em Braga onde está a Sónia, a Maria João, a Fátima e a minha prima Su que entrou este ano para a Universidade do Minho, Somos nós sempre projectados nas gentes que amamos e nos sítios dos nossos afectos.  
Somos nós a chorar os que morreram no Inferno. São eles, os que morreram, e que podiam ser nós. 
É um fogo que arde e nós a ver. 
É o fogo que arde e nós a arder. 

2 comentários:

Arya disse...

Gostei tanto deste texto! Custa muito ver os locais da nossa infância a serem devorados pelo fogo :(

ana disse...

É tão isto!
Subscrevo na íntegra.
Um abraço apertado para as nossas gentes.
Ana

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