quinta-feira, 21 de setembro de 2017

Sexta no Mundo



Antes de sair de mini-viagem para o Porto a Ana choramingou no meu colo. 

A Ana não é de choramingar mas a escola recomeçou há pouco tempo e a Ana fica ansiosa com recomeços. Choramingou baixinho, a cabecinha loira encaixada no meu pescoço, agarrou com a mãozinha no pendente do meu fio da Pandora enquanto me dizia que precisava de mim para a levar à escola nestes dois dias, que precisava de mim para lhe passar o creme após o banho, que precisava de mim para a adormecer, que precisava de mim para poder precisar, simplesmente, de mim. 


Retirei o meu fio do pescoço e coloquei no dela. O pendente comprido batia-lhe no peito. Ela pediu-me que lhe tirasse o seu próprio fio, o com a sua inicial, que ela usa desde bem pequenina e que o pusesse ao meu pescoço. Não foi preciso explicar as regras. 

 A Ana foi para escola de fio da Pandora por debaixo da camisola e da bata. Eu fui para o Norte com a medalhinha com um "A" ao pescoço. Ambas as intenções a aconchegarem-nos o peito. 

 Quando cheguei ontem dormitava no sofá à minha espera. Abriu os olhos e suspirou: 

"Mamã, posso dormir na tua cama? Adoro-te do fundo do meu coração" 

Trouxe-a para a cama. Abraçámo-nos. Espreitei-lhe o fio no pescoço e ia retirar-lho quando, entre pálpebras já fechadadas e de bracinhos à volta do meu pescoço me disse: 

"Sempre que tive saudades tuas agarrava com força no fio e passava."

 Sorri, enternecida. 

"Podemos trocar de fios só amanhã, mamã? É que tu já chegaste mas ainda tenho saudades tuas no meu coração..." 

Sexta no Mundo. 
"E tudo bate certo, nem que por um segundo".

2 comentários:

Carla Silva Cardoso disse...

Valores em que acredito muito e tudo escrito com o coração. Parabéns.

Coquinhas disse...

Oooooh.:')

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