quarta-feira, 20 de setembro de 2017

A Arrumadinha


Devo ter sido a última pessoa na internet a descobrir a Marie Kondo.
Deixem-me explicar para as duas ou três pessoas que ainda não foram kondoevangelizadas: a Marie é a guru japonesa da arrumação. Arruma tudo, com tudo e arrumou comigo para um canto, a fofa.
Mas, como continuo a seguir o velho mantra dessa grande pensadora que é Maria Helena "não neguei à partida uma ciência que desconheço" e tratei de pesquisar tuuudo sobre a Maryconda (na verdade não foi tudo, que sou mãe de família e trabalhadora a full time, a minha vida não é isto, mas vá, dei-lhe forte no Youtube) e voilá... quase que tive um AVC, foi por um triz.
"Então, afinal, o que te irrita na Marie Kondo, Pólo Norte Maria?"
 Basicamente, tudo: o estilo certinho, enjoadinho, OCD e de quem só pina às escuras e à missionário para não amarrotar os lençóis imaculadamente esticadinhos e alvos, mais a maluqueira de fazer festinhas às roupas, mostrar-lhes a nossa gratidão e amor (Whaaat the fuck? Já não preciso de um animal de estimação, vou só ali comprar uma trela e passear uma camisolinha de raça cava já a seguir!) e ainda o desafio do contorcionismo da roupa dobrada que se equilibra sozinha. Tudo isto num tom de quem está namaste a fazer um exercício de yoga ahoooommm com a serenidade reiki e a felicidade shanti para peças de roupa, isto é, uma espécie de sermão de santo António aos peixes mas em linguagem reikiana de meditação zen para peúgas e ceroulas.
Demasiado para mim. E olhem que eu já comi com muita porcaria estranha na vida...



Pensei: "calma melhere, tu "apaga" o youtube e vai ler coisas, que lendo consegues ignorar o ar certinho da senhora mais a voz oriento-hipnotizadora e o tom de afecto com a desarrumação e talvez consigas!".
E ali estava ela:" Isso traz-lhe traz alegria? Use as suas emoções para decidir o que quer mesmo manter em casa (e na sua vida!)". Marie, filha, ao sábado, que é quando pobre como eu arruma a casa, e na perspectiva de passar um de dois dias de descanso semanal a fazer a lida, não há porra nenhum de objecto que me traga alegria. Só os objectos televisão e comando para poder papar séries, de resto, faço o quê? Agarro no fogão- que me dá só desgostos por ter que encostar o umbigo à bancada todos os dias a cozinhar- e cá vai disto?! Agarro na roupa toda dentro do cesto da roupa suja- cujo fundo acho que não existe vai para cinco anos- e espeto tudo no contentor? Deito tudo fora?! Marie Snow: you don't know nothing, babe!"
E continuava a miss lixívia: "Diga adeus às fotografias antigas!" Ahahahahha, tu tás-te a passar o quê? Então desfaço-me das fotografias onde tinha menos trinta quilos e nem um pé de galinha? Continuava " Despeça-se de itens de valor sentimental, separando apenas aqueles que realmente lhe trazem alegria de estarem ali fisicamente; as outras já cumpriram seu propósito de fazer você feliz em um determinado momento. O que fica mesmo são as lembranças na nossa mente!" Mariazinha tu não brinques com o fogo que o Alzheimer existe!
"Elimine as roupas de usar por casa”. Oh, por quem sois: é já a seguir! Vou começar a ver televisão nos sábados de Inverno a comer geladinho enrolada na manta vestida de tailleur e aspirar de colar de pérolas e saia travada com botas de cano alto, que se é para levar isto a sério, uma 'ssoa  incorpora a personagem. 
Entre muitas dicas desisti de ler na parte que nos mandava despejar a mala (carteira para o pessoal do Norte, vá!) todos os dias para a arrumar diariamente enquanto exercício de limpeza da mente o que, no meu caso, equivale a desejarem que enfie as duas mãos todo o santo dia no verdadeiro triângulo das Bermudas. 
Sabem que mais: nope. Pronto, na verdade a esta altura já não corria o risco de quase ter uma trombose mas juro que senti os meus olhos começarem a fazer o pisca e ponderei se não estava a sofrer pequeníssimos acidentes isquémicos transitórios.
Posto isto, desisti de me kondo-trendytizar, que uma pessoa não quer ser Velha do Restelo e quer estar actualizada mas a minha vida não é isto, tenho ali uma data de roupa para dobrar enquanto solto vérnaculos para desabafar da minha vida de suburbana  e- caramba!- que ninguém me diga que a terapia dos vérnaculos não é eficaz, a minha preocupação com as meias não é bem que elas estejam dobradas sem ser numa bola mas sim que todas encontrem par à saída da máquina de lavar e vivam felizes e juntinhas até que os elásticos as separem e podem-me tirar tudo na vida e o mais que consigam, mas a minha camisola roxa ninguém fica com ela!

3 comentários:

traquinasmother disse...

Dizem por los grupos de arrumaçao..SIM estou num, que a Sra desde que é mãe, cambio o discurso...Por tanto agora é esperar o novo livro:«como mudou a minha vida (filosofia,casa,ar zen) depois de ser mãe»!!!!

Paracetamol disse...

Pois, não conhecia... Parece-me que há alguém a transferir problemas para o sector têxtil...

Caracoleta disse...

Polo,o "não negue à partida uma ciência que desconhece" não é da Maria Helena mas sim da saudosa Alcina Lameiras.

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