sexta-feira, 3 de março de 2017

Hospitais (apenas) "baby-friendly"? Não, obrigada!

Li este artigo. Fiquei-obviamente- doente (acredito que seja um caso extremo mas ainda acontece. No segundo milénio da história E isso angustia-me.)

Bebés a morrerem de fome, em pleno século XXI, por fanatismo de equipas médicas numa altura em que as mulheres, recente mães e inexperientes, não se dão ao luxo de tentar seguir o seu instinto e só querem fazer "tudo certo", tudo o que diz a OMS e as suas cartilhas do "ideal" e da lácteo-culpa.

Mais de 50% das mães de primeira viagem que já conheci seguem, cegamente, a opinião dos médicos com medo de errarem, de prejudicarem os seus filhos e com a absoluta crença de que os médicos é que sabem. E que, obviamente, sabem mais que elas. Mais de 50%.

Esta é uma fase em que as mulheres não querem correr riscos. O que está em jogo é demasiado importante para se arriscar. É o seu bebé, a coisa mais importante do Mundo. Não há margem para erros e quer-se tudo feito de forma rigorosa, sem falhas e ideal.


Só que o Mundo não é ideal.

 O Mundo é gerido por nós, com as nossas condicionantes, emoções, necessidades, vontades, motivações. O melhor para os bebés será sempre o que decidir a sua mãe com a inteligibilidade do instinto que é- nos dias de hoje- muito subvalorizado e preterido face a manuais de sobrevivência, crónicas de revista de pediatras que escrevem para um universo de mães, obviamente generalizando, workshops com turmas cheias para se aprender de mudar fraldas, usar sling e cantar afinadamente canções de embalar. 

 Não voltarei a ser mãe, provavelmente.

Não sei se serei avó. Se um dia o for direi à minha filha que siga o que sente. Sempre o que sente. Que escolha um médico em quem confie- um médico, não uma amiga, não uma hipster dos partos, não uma opinadora- e que a respeite como mãe, a oiça e dê importância às suas condicionantes, emoções necessidades, vontades e emoções. E especialmente ao que ela sinta. E que não lhe pregue teorias mas que a oriente e ajude, num processo calmo e personalizado, a encontrar os seus próprios caminhos de maternidade no que às suas dúvidas disser respeito.

Acredito que a mãe se deve rodear de pessoas em que confia e que a respeitem na sua nova condição. Pessoas com conhecimento cientifico como médicos mas que sejam humanos, Pessoas com experiência emocional como os seus familiares (mães, avós, tias) mas com bom senso. E que- no fim de contas- esses funcionem como consultores mas quem decide será sempre ela, com base naquilo que acredita ser o melhor. Para toda a família (ela, marido, bebé e outros filhos, se os houver).

O resto? O resto é instinto. É quase sempre infalível e não o devemos desprezar. Urge dar às mulheres o poder de acreditarem no seu instinto porque cada mãe sabe- em última instância- o que fazer.

 O Mundo não é ideal. A maternidade também não. Errar faz parte. Tentar várias vezes também. Não acertar à primeira é natural.

As alternativas devem ser oferecidas. Devem ser postas em cima da mesa para que as mães tenham livre arbítrio para decidirem em consciência. E depois da escolha feita, da decisão tomada,  devem ser apoiadas nas suas escolhas, da mesma forma profissional, sejam essas escolhas quais forem. Sejam ajudarem nas pegas, apoiarem nas estratégias de amamentação, como ensinarem a dar biberão de forma a evitar a entrada de ar ou prestarem informação correcta sobre o Parlodel.

 Quando os hospitais se deixarem de merdas de amigos dos bebés e se focarem em serem "family friendly" porque os bebés são parte de um todo, são seres biopsicossociais, só aí, o paradigma mudará.

O dogma não deve ser o a favor ou contra a amamentação/o co-sleeping/a alimentação biológica ou o que quer que seja, Deve o da liberdade de escolha e no apoio em cada escolha individual de cada família e na optimização dessa escolha. Seja sobre que tema for. Desde que se ame, se cuide e se queira o melhor.

 Venha a mudança!

[Disclaimer 1 já antes de coiso- Gente mais acalorada pró-amamentação antes que vos dê um fanico: eu não sou contra a vossa perspectiva, não sou contra a amamentação, aliás, sou muito a favor. Para todas as mulheres que o desejam, consigam ou para quem lhes faça sentido. Da mesma forma que sou a  favor da alimentação com leite artificial para todas as mulheres para quem essa escolha seja a que desejam, consigam ou para quem faça sentido. Respeito, empatia, discussão saudável sobre o tema é bem-vinda. De resto, já dei para esse peditório. E já não tenho disponibilidade para o fazer.]

[Disclaimer 2- Fedisbest é uma organização fabulosa que defende que "babies should never go hungry and mothers should be supported in choosing clinically safe feeding options for their babies. Whether breast milk, formula, or a combination of both . Conheçam-na.]

5 comentários:

Paula Ferrinho disse...

"A intuição (ou instinto) de uma mãe é um dado clínico", disse-me uma vez, um pediatra.
Nunca mais desvalorizei a minha intuição, desde aí...
Adorei o post. Concordo a 300%.
Vou partilhar, Bj.

cecilia silva disse...

Obrigado. Vou ser,quer dizer,já sou mãe. Vai nascer em abril,e,espero ter ,a hipótese de opinar,sobre o que sinto ser melhor,para a minha filha,e,para mim. Vou falhar,entrar em desespero,mas penso que consiga ,levar,esta "prova",por bons caminhos,ouvir o que os médicos dizem,e,aí está,não fazer disso um mantra. A amamentação,e,outro assunto,que ,gera polémica,que tenho porque sim,e,uma coisa será o que penso,em fazer na altura,mas o nosso corpo ,nem sempre corresponde ao que desejamos. Se amamentar,boa,senão,a outras opções.😊. Gosto de a ler. Mais uma vez, obrigado.😘

Sonia Barreto disse...

Muito bem escrito e concordo plenamente! A amamentação é um dos temas que gera muita polémica e que as mães de primeira viagem mais sofrem. Se não dão sentem.se más mães e preferem passar o inferno para não serem consideradas tal. Eu fui uma delas mas, ao fim de dois meses, tive que "ouvir.me" e parei. Hoje o meu filho é um bebé normal, igual aos bebés que tiveram mama exclusiva e aos bebés que tiveram fórmula logo de início.

beijo de mulata disse...

Não escrevo para me pronunciar sobre essa instituição do "Amigos dos Bebés", mas para te dizer, princesa, volta lá a ser mãe! Tens pelo menos a opção de adotar, que muito recomendo! Não é para todos, eu sei, mas é para vocês!

(um) beijo de mulata

Sandra disse...

Passadas 12 horas de vida do meu filho comecei a senti-lo muito agitado. Chorava imenso, nao sossegava... Estava a ser amamentado com a periodicidade devida, no entanto eu sentia que ele nao estava satisfeito. Por diversas vezes coloquei a questão às enfermeiras, se a razão para a sua mal disposição nao seria fome. Todas relativizaram, dizendo: - é mesmo assim mãe. Ele está a comer, apenas protesta por estar fora da sua barriga...
Eu sentia que algo nao estava bem e que ninguem me ouvia...Nem o meu marido, crente nas palavras das enfermeiras
24 horas passadas, e sempre no registo do berreiro absoluto e ensurdecedor, com interregnos quando ele estava supostamente a "comer", pedi para falar com a enfermeira chefe e exigi que o meu filho fosse alimentado complementarmente ao meu leite. Que ele estava com fome e que não admitia mais fundamentalismos e fundamentalistas.
Veio o biberon ... Peito e biberon e o mafarrico virou anjo!

"Só a mae sabe", já dizia a Mãe Gothel da Rapunzel

Obrigada pela partilha do texto.

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