quinta-feira, 1 de setembro de 2016

[Praticar a vulnerabilidade]

Bordados feitos pela Andrea. Quero- desesperadamente- um. Para me lembrar dos dias em que quase me falta o ar e das flores que brotam após cada suspiro de dor como se os pulmões se enchessem de ar e de coragem e se desvendasse aos meus olhos o encanto de uma Primavera completa.



["Praticar a vulnerabilidade".
 Assim, esta expressão ali deitada aos meus olhos. Encontrei-a no instagram da Andrea- que sigo silenciosamente há meses, não sei como lá fui parar, mas fiquei, como se algo nos unisse, aparentemente nada, ela num Canadá de lagos grandes e melancólico, eu num Portugal de mar descarado e escancarado ao sol, talvez a filha, não sei, a cumplicidade da maternidade, talvez não, talvez nada e isso seja tudo o que nos une. 
"Sou uma solitária e uma introvertida". Sorrio. Pode-se ser solitário e extrovertido, garanto-lhe no silêncio da minha leitura. "Aderi ao instagram em 2013 durante um processo de separação que me deixou completamente só. [...] Este é um lugar que eu uso para me ligar às pessoas e partilhar merda pessoal e mundana que acontece no meu dia a dia". Volto a sorrir. Confio sempre em gente que diz palavrões assim, de forma poética e crua, irreflectida e emocional. 
"Tenho 34 anos. Sou caranguejo. Há muito tempo. Leio muito. (...) Tenho uma depressão crónica que trato com medicação, longas caminhadas, yoga, Steve Brule, ponto cruz e estando fora de casa. Negligencio a minha depressão com álcóol. Sou um caso em progresso. 
Tenho uma doença no sangue (...) que fez do meu sistema imunitário uma espécie de merda mas que me previne de ter que trabalhar num emprego convencional. 
Estou interessada noutros espaços siderais (...) e em ligar-me a outros humanos. 
Sou mãe e acho a maternidade claramente alienadora. A minha dependência depende furiosamente de me auto-cuidar, pelo que, educar Willa é um esforço de equipa muito grande. 
Penso que o mundo precisa de vulnerabilidade e leveza e de algumas pessoas que estão seguras dos seus pontos fracos e em paz com o facto de serem seres humanos trôpegos. "
Respiro fundo. Quando abdicámos da nossa vulnerabilidade? Quando desistimos de nos mostrar fracos e carentes, precisados de colo e de cuidado? Quando passámos a usar em full time uma carapaça para não darmos o flanco, para não nos atacarem nos pontos nevrálgicos, para não nos magoarem como se abdicar da nossa vulnerabilidade fosse o caminho certo e não combater a maldade, a crueldade dos outros?


Tive um Agosto mau. O meu tio passou a última noite de vida na minha casa. Velei-o a noite toda com medo que morresse ao meu lado. A última vez que o vi rir foi perante a imagem de um maço de tabaco que lhe estendi, como quem atira para a arena alguém que quer que a besta o atropele de uma vez. Vi-o descer as minhas escadas com dificuldade. Disse-me "até logo". Recusou a ajuda do Rui para andar amparado não sei se por casmurrice se por dignidade. Esperei um telefonema que não veio e fui ao seu encontro para o acompanhar na morte. Irónico, logo eu que tinha passado a noite anterior com medo que me morresse ao lado. Estive de pé lá, ao lado da maca fria do hospital, fui voluntariamente vê-lo morrer para que não morresse sozinho, para ter a certeza que a morfina o deixava morrer em paz. Falei com ele com a certeza que me ouvia e que as minhas palavras o serenavam quando fosse a hora do corpo desistir. Monitorizei, segundo a segundo, os batimentos cardíacos naquele monitor e quando me apertou a mão e deu o último suspiro, um respirar fundo final, não consegui dizer nada, nem gritar por ajuda, nem desatar o nó que me atava a garganta e desembaraçá-lo em lágrimas. A expressão resignada do enfermeiro. As palavras de consolo da médica. As lágrimas da minha mãe e eu gosto tanto dela e nunca a consigo consolar. E eu ali, má de Agosto como já sou má de Junho e de Dezembro, não tarda muito todos os meses são meses em que me morreu gente e eu só queria que fossem meses de gente que nasceu e que comemora aniversários. Começo a odiar o calendário, nomes de meses e números de dias. O corpo do meu tio desistiu.
A Ana fez anos e eu consegui perceber que, por um filho, se consegue meter a tristeza no modo "pause" mas não se consegue desligá-la para sempre. Percebi, ainda, que nada me faz melhor ao luto que entrar em negação, evitar pensar nele, ignorar as insónias e os pesadelos e arregaçar as mangas, entreter a mente e o corpo, trabalhar, trabalhar, trabalhar. Dinamizei um campo de férias de forma autómata e contribuí para 30 pessoas ficarem verdadeiramente felizes. Sair do modo "pause" e carregar no "fast farword"- é sempre o meu modus operandus. 
Obriguei-me a parar uma semana, não queria ir para longe, não me apetecem viagens demoradas, e tempo livre, no lugar do pendura, para pensar. Fugi ao calor e vivi dia a dia, planos de "já" para "daqui a bocado", pensamentos imediatos e prazeres instantâneos. Vi a minha filha nadar no mar, brincar na areia, ter a pele salgada, escorregar em insufláveis, trepar paredes de escalada, dar tacadas de mini-golf e brincar em bolas gigantes. Mostrei-lhe o sabor de panquecas todas as manhãs e de pão com chouriço cozido em forno de lenha ao entardecer e da magia de comprar flores do campo no mercado. Apresentei-lhe aventuras em mini-safaris de apenas duas espécies de animais, expliquei-lhe o que são coches, ensinei-a a usar binóculos e a soprar em pássaros de barro com água lá dentro para produzir o chilrear dos passarinhos. Dei-lhe todos os colos, beijos e cavalitas que me apeteceu e derreti-me a vê-la brincar com a melhor amiga. Bebi café de cafeteira ao fim da noite, li livros em silêncio em cada insónia e adormeci, invariavelmente, no colo do homem que me escolheu e que gosta de mim assim, sem medo de ser frágil, entregando-se à vulnerabilidade em privado, gata brava que precisa de cafuné. 
Tive um mau Agosto e podia mostrar só as fotografias felizes - que as tenho- e que ficam melhor nos blogs que as palavras doídas mas hoje ecoa em mim a expressão da Andrea "praticar a vulnerabilidade".  
E se quiserem agarrar nas minhas palavras e fazerem delas outras, não me importo, não tenho medo, dou o flanco, não há palavras dos outros que tenham o poder de me acorrentar, porque assimilei, assim, à custa da Andrea, que ser frágil às claras pode ser terrivelmente libertador. Não vai haver um "até logo"- resigno-me, triste e sorumbática.
Carregar no "play"? ]

"Thanks for being here guys. If any of this feels like it's TMI than you probably don't belong here. 💛"

6 comentários:

Sónia Cântara disse...

Precisamos todos de mostrar mais a nossa vulnerabilidade. Neste mundo de faz de conta em que somos todos (aparentemente) muito felizes e a "viver o momento", já não há lugar nem permissão para a tristeza e a dor. E andamos todos a tentar varrer para debaixo do tapete...
Obrigada pela coragem de partilhar que a vida nem sempre é cor de rosa e que há momentos, dias, meses ou mesmo anos que adoraríamos apagar do nosso calendário.

Joana Sousa disse...

Que bom desabafo. Desabafar faz bem, limpa a alma. E nem tudo é mau...muita força, que já a tens, e já a usas <3

Jiji

ana disse...

por falar em vulnerabilidades
é preciso coragem, muita coragem :)

C* disse...

Querida Pólo,

Ler-te hoje pareceu-me quase como um sinal do Universo ou algo similar....ando há uns meses a lutar com esse conceito, novo para mim, da vulnerabilidade. Conhecer, reconhecer e praticar a vulnerabilidade, tornou-se o meu mantra.
A vulnerabilidade é a coisa mais poderosa que existe! Gera empatia e a empatia gera conexão, e a conexão e o sentido de pertença é o nosso propósito. O propósito de todos os homens, mulheres e crianças.
Por isso, obrigada por te expores, por seres vulnerável, e, praticando eu própria a minha vulnerabilidade, quero dizer-te: Eu entendo! Não passei pela mesma situação, mas experienciei emoções idênticas! Não estás sozinha na tua dor avassaladora, na tua sensação de impotência, de perda, nem nos mecanismos que usaste para afugentar tudo isso. O meu Agosto foi uma bela merda! Senti isso tudo, e fiz isso tudo e, tal como tu, concluí que só a vulnerabilidade nos traz paz. É ela que nos lembra da nossa humanidade partilhada.
Deixo-te com uma citação de uma autora que adoro, a Dr.ª Brené Brown (vê a TED talk dela sobre vulnerabilidade, acho que vais gostar): “Vulnerability sounds like truth and feels like courage. Truth and courage aren't always comfortable, but they're never weakness.”

ccstylebook disse...

"Gata brava que precisa de cafuné". Não sei porquê, mas identifico-me bastante com esta descrição. Se calhar por sempre carreguei muito no "pause", ultimamente, mais do que nunca. Tens todo o direito em sentir-te, assumir-te, pensar-te, como ser vulnerável. Na realidade, é o que todos somos, mas andamos a enganar-nos. Julgamos quase sempre que conseguimos, que aguentamos, que ultrapassamos. Um beijinho e um abraço. Grande.

inês costa disse...

Uau ♡♡♡

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