segunda-feira, 18 de julho de 2016

36 anos e 1 dia



Não tenho gostado assim por além dos 30.
"Aquela conversa toda de "os 30 são os novos 20" soa-me a uma grande treta e a redução da dissonância cognitiva (não psicólogos: googlem!). 
Aos vinte sentia-me mais crente, mais capaz, mais inconsequente, mais energética, mais gira e mais poderosa. Podia até ser uma falsa sensação mas sentia que todas as possibilidades se encontravam em aberto e que tudo era possível até prova de contrário. Sentia-me invencível. 
Os 30 deram-me uma lição de contrariedades, adversidades, dificuldades e humildades e mais merdas acabadas em "ades" que agora não me lembro. 
A única coisa realmente memorável da primeira metade dos 30 foi a experiência de maternidade e a conjugalidade  (as únicas coisas que me lembro que me tenham acontecido acabas "ade" em bom). 
A passagem do tempo começou a ser relevante, os movimentos de rotação e translação da Terra começaram a ser mais sentidos, a morte das gerações que nos precederem deixaram de ser uma possibilidade distante e passaram a ser uma constatação mais real, as vinte e quatro horas do dia mais insuficientes, a gestão de prioridades passou a ser a prioridade, algumas pessoas perderam-se pelo caminho, pela distância física ou emocional, pela falta de compatibilidades de agenda ou pelas diferenças que o tempo nos trouxe, deixou de haver pachorra para fretes, cerimónias e tricas, passou a aceitar-se com mais naturalidade o passado e a ter mais reservas quanto ao futuro ou por conta da nossa incapacidade ou dos tempos ou da troika ou da crise ou dos tempos do raio que os partam. 
Talvez ter 30 na década anterior tenha sido diferente de ter 30 agora, quando a liberdade passou a ter reservas, quando os bancos não nos emprestam por dá cá aquela palha dinheiro para fazermos um crédito habitação, quando os recibos verdes não nos garantem subsídio de férias para andarmos de avião daqui para fora, quando as instabilidades profissionais, as empresas a falir, a falta de investimento externo não nos permitem fazer planos a médio prazo, quando os nossos pais não se conseguem reformar antecipadamente para nos poderem ajudar com os nossos filhos e irem em excursões do Inatel que os façam felizes, quando a falta de segurança nas ruas não permite que expulsemos os miúdos com paus de giz para se entreterem a jogar à cirumba ou à macaca no alcatrão da rua em frente à nossa casa com o filhos dos vizinhos enquanto damos uma queca entre a limpeza do pó da sala e o arrumo dos quartos nas limpezas de sábado, quando temos medo de ver fogo de artifício no meio de uma multidão, quando temos que estar na praia com os miúdos e em vez de estarmos apenas ali a usufruir do sol e das gargalhadas temos que estar atentos a possíveis pedófilos nojentos a espreitar pelo paredão e a tirarem fotografias com smartphones aos nossos filhos, quando a vida se tornou uma coisa sempre na montra das redes sociais, demasiado exposta a críticas, opiniões, juízos de valor e, por isso, temos todos que ser felizes sempre, em permanência e obrigatoriamente, mesmo que não sejamos, não por pirraça ou aparência mas, às vezes, só para não darmos o flanco, Quando a vida, os tempos, a sociedade vigente te obriga a ser quem não és, a fingir seres quem gostarias de ser, tudo isto sem te garantir uma puta de uma rede de segurança para arriscares, para fazeres mais, para seres mais afoito, mais tu. Ou então não seres nada e ficares apático e passivo, a comer bolos e a engordar sem que te chateiem, a usares cabelo desgrenhado sem que te sugiram alisamentos progressivos, a comeres tremoços em vez de sementes, a leres livros que ninguém lê sem que te falem em top sellers, a seres quem és e não quem deverias ser, sem que te pressionem para a normalidade, essa coisa estúpida que todos normalizaram que é o caminho que tens que seguir para seres feliz. 
Sou, agora, na segunda metade destes 30, oficialmente uma trintona. Não sei bem o que significa isso. Quando era pequena uma pessoa de 36 anos era uma "senhora", tratavam-na por "dona" no cabeleireiro e no café, tinha-se filhos crescidos e "esposo", carteiras de pele e filofaxes. 
Não sou nada disso, às vezes (muitas) ainda não sei bem o que sou e angustia-me que ainda ande, aos 36 anos, aos papéis, em reconhecimento de zona, em visita de inspeção a isto da vida, como em adolescente mas com a diferença que ainda mais auto-centrada, com a certeza que a opinião dos outros vale sempre na medida de quem são os outros e que, findas as contas, os 30 são os novos 10 com menos acne e mais celulite, menos sensação de carneiragem e mais de cabritice, igual sensação de procura, incerteza, angústia mas com menos necessidade de auto-afirmação. Porque aos 30, ao contrário de aos 10, sabemos quem somos. Porque aos 30, ao contrário de aos 20, sabemos quem nunca seremos. Porque aos 30 só nos resta aprender a gostar de quem nos tornámos. 
Não tenho gostado, por aí além, disto dos 30. Pode ser que a segunda metade prometa. Tenho como único objectivo tornar-me uma MILF. É que, assim com'assim, não gosto nada de carteiras de pele e só sou mesmo "dona" do meu nariz. ]

7 comentários:

Framboesa (uma diva de galochas) disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
stantans disse...

ainda só vou para os 30, mas identifiquei-me bastante

Ana Azevedo disse...

Fogo. Faço 36 na próxima semana. E identifico-me com cada linha que aqui está escrita.

Framboesa (uma diva de galochas) disse...

Olha citei-te lá no meu burgo

Unknown disse...

41 anos, uma filha com 3 anos e meio, e identifiquei-me com tudo o que escreveste...

Margarida

Ines Adao disse...

Adorei o que escreveu e como escreveu, concordo com tudo...parabéns!

ccstylebook disse...

Quando fiz 30 Pólo Norte, entrei numa espiral depressiva do tamanho da via láctea muito por causa daquilo que eu achava que ia ser (e que ia ter). E hoje a tua frase, "porque aos 30, ao contrário de aos 20, sabemos quem nunca seremos" resumiu tudo o que senti nesse primeiro ano dos 30. Fiz um esforço enorme para realmente, amar, de verdade, a pessoa na qual eu me tinha tornado, e agora que a coisa até estava de feição, apareceu-me um cancro, só assim para complicar mais um bocadinho as coisas. Espero que as segundas metades de todas nós sejam mesmo, mas mesmo fixes! Um beijo enorme ;)

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