quarta-feira, 25 de fevereiro de 2015

Este país não é para pessoas?

"Os hipermercados são um lugar horrível: cínico, falso, cruel. À entrada, os consumidores limpam a sua má consciência reciclando rolhas e pilhas velhas, ou doando qualquer coisa ao sos hepatite, ao banco alimentar ou ao pirilampo mágico. Dentro da área de consumo, cai a máscara de humanidade do hipermercado: entra-se no coração do capitalismo selvagem. O consumidor, totalmente abandonado a si próprio (é mais fácil de encontrar uma agulha num palheiro do que um funcionário que lhe saiba dar 2 ou 3 informações sobre um mesmo produto), raramente tem à disposição mercadorias que, apesar do encanto do seu embrulho, não dependam da exploração laboral, da contaminação dos ecossistemas ou de paisagens inutilmente destruídas. Fora do hipermercado, os produtores são barbaramente abusados pelo Continente (basta que não pertençam a uma multinacional da agro-indústria), que os asfixia até à morte e, quando há um produtor que deixa de suportar as impossíveis exigências que lhe são impostas, aparece outro que definhará igualmente, até encontrar o mesmo fim. Finalmente, nas caixas do hipermercado, para servir o consumidor como escravos idênticos aos que fabricaram os artigos comprados, estamos nós.
Mas o pior de tudo é mesmo o que acontece durante o tempo de trabalho. Os meus superiores querem que eu esteja as 4 horas sentada a render o máximo que é humanamente possível, por isso, dificultam ao máximo as minhas pausas – que são legais e demoraram séculos a conquistar – para ir comer qualquer coisa ou ir simplesmente à casa de banho. A única coisa que me autorizam a levar para junto de mim, no meu posto de trabalho na caixa, é uma garrafinha de água previamente selada e nada mais. De resto, o que levar para comer e beber (sumos e iogurtes líquidos não podem ir comigo para a caixa) tenho que deixar no Posto de Informações e só tenho acesso quando da caixa telefono para lá. Normalmente, no Posto, fazem que se esquecem desses pedidos, passando uma eternidade até eu finalmente conseguir ir comer. E, quando a muito custo lá consigo obter autorização para ir comer, sou pressionada para ser ultra rápida, pelo que em vez de mastigar estou mais habituada a engasgar-me. O mesmo acontece com as idas à casa de banho, sempre altamente dificultadas.

12 comentários:

stantans disse...

eu trabalho numa grande empresa de telecomunicações e os 3 primeiros pontos passam-se comigo sem tirar nem por. recebo pouco mais de 3 euros à hora em horário full time, quando chega a altura de passarmos a efetivos despedem-nos e ficamos sempre tempo extra após a hora de saída sem remuneração. felizmente que pelo menos nas relações humanas não me posso queixar

André disse...

Este país arrisca-se a não ser para ninguém, excepto turistas e «empresários» endinheirados...

cutxi cutxi disse...

Cambada de chulos.

Rafinha Girassol disse...

Li, pensei, remoí, matutei... saiu isto: http://soparaserdifferentte.blogspot.pt/2015/02/como-em-tudo-como-olhas-para-o-copo-que.html

Reflexos... disse...

Trabalhei numa MUITO conceituada "loja" ,onde até não lhe faltam prémios porque é chique e tal, só que o que as pessoas não sabem é que os empregados ganham uma miséria, quando foi a altura do natal chegamos a fazer 24 horas seguidas e o tempo que lá trabalhei, não faltei um unico dia!! Entrei sempre mais cedo no minimo 20 minutos e não adiantou de nada, ir trabalhar para fora da minha zona de residência, ninguém valoriza a assiduidade o empenho e as boas prácticas de higiene. Despediram-me como fazem com tantos outros. Uma coisa é certa ninguém tira as lágrimas que chorei a cada noite que chegava à estação e já não conseguia apanhar o autocarro que me deixava mais "perto" de casa e assim sendo, vinha por aquelas ruas fora à 1 e tal da manhã a chover e a cruzar-me com todo o tipo de delinquentes, não fosse a linha de Sintra problemática , não adiantou este meu esforço e os cagaços que apanhei!!
Tudo isto para ganhar 505 euros e gastar 60 em passe.

Só me tenho a mim e por isso fui aguentando, não sei ainda como se vive do ar, mas em breve parece-me que vou ter de descobrir.



É triste estar desempregado neste país, onde todos os dias somos olhados de lado como se não quisessemos trabalhar e as pessoas nem sonham a quantidade de empresas fraudulentas que se aproveitam desta situação e nos "convidam" a ir a entrevistas, onde nos fazem as perguntas mais descabidas e no final , é vendas porta a porta.

Puta que pariu isto tudo.
Depois quando desistimos de tudo aparecem 98979 amigos a escrever R.I.P

Ursa não sou muito de comentar aqui , até porque sou péssima com a pontuação e não gosto de fazer figuras tristes mas se muita gente que anda por este país, tivesse só 1/3 do teu bom senso e sensibilidade, eramos todos muito menos infelizes!!



Bem haja!!

Joana Ferreira disse...

Pois que trabalho na empresa, nesse lugar encantador que é a Caixa, há mais de dois anos e entretanto estou na rua para não me tornarem efetiva.
É duro! Não há dia que se saia a horas, mas também nos é dado esse tempo posteriormente (pelo menos a maioria do tempo. viva o saco de horas!), pedem atenção à maquilhagem e JAMAIS temos água ou alguma coisa para comer junto a nós (há sede? necessidade de wc? pede-se a alguém nos renda durante uns minutos... fome? espera-se pela hora de intervalo ou de saída). E quer sejam 4h ou 9h o trabalho é em pé, não há cadeiras para ninguém.
Tudo normas superiores à chefe de secção, da qual não tenho qualquer razão de queixa e faz o que pode pelos colaboradores.

Maria Elisabete Vida disse...

Trabalha mesmo no Coontinente ou apenas quis partilhar este abuso? Eu agora estou de baixa médica profissional, mas o meu salário é de 3,50 á hora. Há quinze anos quando entrei a bruxa (directora) tentei fazer que eu fosse embora, também com contratos de 5 meses, só que eu além do curso de auxiliar de educadora de infância, uma tinha uma boa "cunha" e não conseguiu.
Fez pior, mentive-me na mesma sala vários anos em esteporou todo o meu sistema musculo esquelético e agora além de uma doença profissional (tendinose ombro direito) arrastou para outras tantas em que eu vou ter de conviver o resto da minha vida. Depressão nervosa, bursutes nas ancas e fibromialgia. Mas aquela besta vai pagar por gtudo isso. Desculpe o desabafo. Bjs.

Tânia Jorge disse...

ai polo norte... se se abrisse um tópico em que as pessoas pudessem escrever sobre as suas condições de trabalho... depois de ler, emigrava tudo!

Maria João Coutinho disse...

Só tenho pena que para a maioria das pessoas em Portugal, esta realidade passe ao lado. No final de lerem, muitos ainda criticam a falta de esforço, capacidade de superar e de empreender da trabalhadora. Enfim...todos deviam passar por dificuldades destas para sentirem na pele que infelizmente em situações mesmo sendo bom e esforçado de nada adianta.

Lingua Afiada disse...

Vou publicar também.
A verdade é que estamos cada vez mais a dar dinheiro aos mesmos, e a contribuir para que estas barbaridades continuem.

Tracey disse...

horrível... :(...

sonia loureiro disse...

A triste realidade que todos escondem com medo de perderem o emprego

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