terça-feira, 28 de janeiro de 2014

O Rui Pedro enquanto meu filho, dezasseis anos depois

Temos sete anos de diferença: eu e o Rui Pedro. Acho que tinha uns dezoito anos quando o Rui Pedro desapareceu, numa história a que, na altura, não dei muita atenção, preocupada que andava na minha vida umbiguista, entrada na universidade, namorados e saídas à noite.
O tempo passou e fui assistindo, com alguma empatia, ao desenrolar do caso, aos contornos macabros do seu desaparecimento, à anorexia da mãe, ao congelar da dinâmica familiar, fotografias do quarto intacto de um pré-adolescente, para sempre cristalizado na vida daqueles pais, daquela irmã, o tempo passou pelo somar de ausências mas nunca actualizou as fotografias do Rui Pedro, uma memória que a mãe não quer que se torne memória mas sim real, ainda viva, ávida de ser encontrada.
O Rui Pedro podia ter sido eu, lembro-me de ter pensado na altura do desaparecimento, na recta final da minha adolescência, sete anos é pouco tempo. Tê-lo-iam raptado? Morto? Teria fugido? Tráfico humano? Tráfico de órgãos? Rede de pedofilia?
Como se sentiria o Rui Pedro se estivesse vivo? Lembrar-se-ia de onze anos em casa? Tê-lo-iam corrompido? Quereria ser encontrado? Teria medo?
O Rui Pedro, sete anos de diferença que tinha de mim, era um par até há um ano, cinco meses e dezanove dias. A mãe do Rui Pedro era uma mãe, como a minha, louca de desespero por encontrar o pedaço de alma que lhe tinham amputado, resistente à vida com o único propósito de estar cá, para abraçar o filho, caso ele voltasse e ela sempre acreditou que voltaria, não podia desistir de viver, desistir de acreditar que o filho está vivo, se desistisse morreria a esperança para sempre, morreria a hipótese do reencontro. E se o filho um dia voltasse e ela já cá não estivesse? Sentir-se-ia abandonado outra vez?
A mãe do Rui Pedro era uma mãe, como a minha, até há um ano, cinco meses e dezanove dias. Agora é ela meu par, mãe como eu, a Filomena sou eu naquela angústia que reconheço agora nos olhos de uma mãe que conheceu o amor maior da vida e a quem lhe foi roubada parte da alma, da vida, do coração. Coração de mãe.
Hoje, cristalizei eu o Rui Pedro no corpo daquela criança de onze anos, podia ser meu filho ("Não podia, que disparate! São apenas sete anos de diferença!"), não quero saber de contas, nem de lógica, nem de argumentos racionais. Hoje eu sou a mãe do Rui Pedro.
Hoje falo, pela primeira vez, acerca do Rui Pedro enquanto meu filho, filho de todos nós.
Hoje, neste post, sou apenas mãe Filomena.


10 comentários:

Fuschia disse...

Lembro-me muitas vezes da mãe do Rui Pedro. Não consigo lembrar-me de alguém com fardo mais pesado.

vanda disse...

Ia comentar, mas não sei o que dizer... As lágrimas embaciam-me os olhos, turvam-me a visão, aperta-se-me o coração. Porque o Rui Pedro também é meu, há cinco anos e angustia-se-ma a alma de pensar na dor da Filomena, grande MÃE, admirável senhora que se mantém erguida face a esta réstia de esperança que a mantém viva. Não haverá palavras de apoio que lhe tragam alento algum, mas que sinta que estamos com ela, nesta angústia... Onde quer que estejas Rui Pedro, a tua mãe estará sempre contigo, e nós convosco... <3 <3

Sonia disse...

arrepiante...
Desde que sou mãe também comecei a ver as coisas da prespectiva de uma mãe -um roubo no coração e na alma sem duvida como tu propria tão bem disseste...

Secretly disse...

O caso do Rui Pedro marcou-me muito, estava gravida do meu filho mais velho. Quando ele nasceu, eu vivia em panico com medo de que alguem mo levasse.

Elora disse...

Foi o que senti após ser mãe, qualquer pessoa podia ser meu filho. Menos um político, que isso não é desgosto que se dê a uma mãe.

cantinho disse...


´:( a tristeza invade-me a alma sempre que ouço falar neste menino, na mãe que não desiste de o encontrar, na esperança que muitos de nós, como eu, têm de que ele vai aparecer.
Não sou mãe, mas criar alguns sobrinhos e ter a preocupação e alguma angústia de que podia ou pode aocntecer alguma coisa àqueles que tanto amo como meus filhos, agonia-me.
E eles sabem que sim.
Hoje, como em muitos dias da minha vida, quando lembro destas crianças, também sou mãe.
Beijinho

Caco disse...

Arrasador. Ninguém merece isto. Só espero que, um dia, esta história venha a ter um final feliz.

Caco disse...

Arrasador. Ninguém merece isto. Só espero que, um dia, esta história venha a ter um final feliz.

Caco disse...

Arrasador. Ninguém merece isto. Só espero que, um dia, esta história venha a ter um final feliz.

Mamã Petra disse...

Quando o Rui Pedro desapareceu o meu Artur tinha 4 anos e andei meses com um nó na garganta, um nó que doi e hoje em dia vivo de perto algo semelhante o ex marido de uma amiga minha raptou a filha de ambos há mais de 1 ano, 2 natais sem a Alice, DOI DOI muito principalmente conhecendo a pessoa e sabendo que a Alice tinha pavor dele, dos traumas de o ver maltratar a mãe física e psicologicamente, ao ver a Filomena vejo a Carla, nem uma noticia, nem uma carta nem uma foto, fugiu sem deixar rasto. Como vive uma mãe sem o seu amor maior, não imagino não quero imaginar.

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