quarta-feira, 20 de março de 2013

Todas as terras deviam ser assim

A minha terra tem uma "Rua Direita". Tem um "Café Central" e um "Cantinho do Morais". No Largo da Igreja há um coreto. Tem um padeiro que ainda faz pão em casa e o deixa de manhã à porta das pessoas. Flores amarelas de erva azeda em vez de ervas daninhas pelas bermas da estrada, Há uma Rua 25 de Abril. Tem pessoas que dizem sempre "bom dia" a quem passa, mesmo que sejam desconhecidos. Ao meio dia toca a sirene dos bombeiros. Tem um campo da bola. Tem festas em honra da padroeira com bailaricos. Tem um velho rebarbado que adora dar beijinhos e abracinhos às amigas de infância da filha. Um posto da GNR. Andorinhas a fazer ninho nos beirais dos telhados na Primavera. Tem uma marginal. Um Grupo União Desportivo. Tem um moinho de vento. Tem um grupo de gordas que vestem coletes reflectores amarelos e fazem marcha pela aldeia à noite. Um carteiro que se entrega cartas deslocando-se numa Zundapp Famel. Tem um café com uma empregada que sabe tudo da vida de toda a gente e que se chama Patrícia mas que tem o apelido de "Correio da manhã". Tem Pão por deus dia 1 de Novembro. Tem uma mercearia que toda a gente achou que ia à falência com a abertura do shopping mais próximo mas que resiste porque vende o pão de Mafra,  o chouriço de sangue do Minho, os queijos frescos mais frescos e iguarias típicas directamente dos fornecedores locais. Tem ovelhas e pastores que fazem parar o trânsito, às vezes. Tem beatas que moram ao pé do adro da Igreja e que vão a todos os funerais e velórios, mesmo que não conheçam os mortos. Tem uma poetisa popular que faz quadras à desgarrada. Tem um sino que se ouve, altaneiro, às onze da manhã de domingo. Tem vizinhos que se cumprimentam por "vizinhos" como se fosse um parentesco. Tem um cata-vento no telhado da escola primária. Tem muita gente que não sabe o meu nome mas sabe de quem sou filha e neta. Tem o "enterro do bacalhau" todas as quartas feiras de cinzas. Tem gente que se conhece pelo nome próprio. 
A minha terra tem vida lá dentro. 

E a tua?

23 comentários:

Sandra Correia disse...

A minha tem um peixeiro a trazer o mar às nossas portas. Tem vendas e não supermercados. Tem santinhas itinerantes que mudam de casa todos os dias.

CoriscaRuim disse...

Olha, esta poderia ser a descrição de muitas terras açoreanas :)

A minha tem o pão da Zenaida, uma rua do Espírito Santo, uma do Egipto, um café de Belém, um café Redondo e uma Chinesa (somos multifacetados cá na terra). As crianças ainda brincam na rua, falo com a minha vizinha, enquanto ambas estendemos roupa e trocamos alfaces por pimenta vermelha. Cumprimentamo-nos todos com bom dia, desde conhecidos a repatriados, traficantes e prostitutas, doentes mentais (a zona onde moro é para lá de fantabulástica, em vários aspetos, bons e maus), a total estranhos. Há contendas para subirem a mordomos, mas toda a gente acaba ajudando. Na minha terra, abriu um grupo de voluntários para fornecer sopa feita em casa, legumes para confecionar na junta de freguesia, segundos pratos, bens essenciais e muito amor, ao próximo.
Na minha terra toda a gente conhece os nossos pais, os nossos avós, a família toda.
Na minha terra, não sou a Corisca: sou a filha do Zeca, com todo o orgulho que isto acarreta.
Ah...Não esquecer as beatas e a dona da mercearia que sabem da vida de todos. Isso e a parte em que o pároco de muitos anos foi transferido e, na minha terra, as pessoas deixaram de ir à missa da freguesia, para seguirem o padre (agora as coisas estão melhores)...

Caracinhas, gosto mesmo da minha terra :)

UBM disse...

E há uma Rua Escura, há sempre. E também às as santinhas itenerantes, os tapetes de flores para receber a cruz no domingo de páscoa. E há domingo de ramos com muito significado e folares dados pelas madrinhas às afilhadas.
Há o "senhor dos frangos", que vende frangos, galinhas, coelhos, ovos, patos, porta a porta pela manhã.
Há vizinhas que levam o que de melhor têm no quintal umas às outras, porque é só naquele momento de partilha que o processo de cultivo e produção dos vegetais está concluído.
Há poças, das gigantes, com sapos e meninos a brincar com eles.
Há muitas gargalhadas, e, como minhotos que somos, nenhuma Ana é tratada, na prática, por Ana, dize-mo-lo de outro modo.
Há mesa de natal posta durante vários dias sem interrupção, porque as visitas são mais do que muitas e as iguarias estão sempre a ser cozinhadas pelas mulheres da casa.
Há presépios com musgo apanhado pelos mais novos e arvores de natal feitas com pinheiros verdadeiros, que aquele delicioso cheirinho ninguém nos tira.
Duplica ou triplica a população em Agosto e há festas todos os sábados de Verão. Há trovoadas de Agosto, já agora, aquelas secas que aparecem e desaparecem do nada.
Há tanta coisa, Pólo, tanta coisa, que só de escrever este bocadinho fiquei de coração cheio

jOana disse...

A minha terra tem um Largo da Igreja e há um coreto. Também tem um padeiro que ainda faz pão em casa e o deixa de manhã à porta das pessoas. Também tem pessoas que dizem sempre "bom dia" a quem passa, mesmo que sejam desconhecidos. A sirene dos bombeiros toca às 13h e o sino da igreja toca de hora a hora. Tem um campo da bola e um clube desportivo. Também tem festas em honra da padroeira com bailarico e romarias. Também tem um posto da GNR e andorinhas a fazer ninho nos beirais dos telhados na Primavera. E também tem vários grupos de gordas que vestem coletes reflectores amarelos e fazem marcha pela aldeia à noite. Tem cafés com uma empregada que sabe tudo da vida de toda a gente...mas na verdade toda a gente sabe a vida de toda a gente. Também tem Pão por Deus dia 1 de Novembro. Ah, e na minha terra, o padre vai a casa das pessoas no Dia de Páscoa, casa a casa.

Vans disse...

A minha ainda tem muito disso tudo e tem o som da gaita do amolador de facas e tesouras! (quando o ouço até me vêm as lágrimas aos olhos!)

jOana disse...

(continuando...) Na minha terra há peixeiras que apitam quando chegam à rua, para chamar os clientes. Apanha-se a roupa do estendal da vizinha se começar a chover e oferecem-se os frutos/legumes que cultivam. E todos têm uma alcunha que vai passando de pais para filhos...

El Gato disse...

A minha tem (ou tinha) um amola-tesouras, cuja gaita se ouve uma ou duas vezes por ano.
Só não entendi a parte da marginal: uma marginal não é uma "corniche", por definição, junto ao mar (ou, vá lá, um lago ou rio)?

Luísa Santos disse...

bem, ficou um bocado diferente do que ía escrever e, provavelmente, do objectivo mas aqui vai :)
http://outubro-a-outubro.blogspot.com/2013/03/todas-as-terras-deviam-ser-assim.html

Solana disse...

A minha é a tua!
E é tão bom!!!!

Sofia Loves disse...

É mais ou menos assim:
http://smileandup.blogspot.pt/2013/03/a-minha-terra.html

Simplesmente Eu disse...

Cá vai...devo ter-me esquecido de muita coisa!

http://eugataemtelhadodezincoquente.blogspot.pt/2013/03/a-minha-terra-e-assim.html

Diogo disse...

Só para avisar que Hoje chegou a Primavera.

numbi disse...

a minha também tem!! :)

http://numbi.blogspot.com/2011/01/no-meu-refugio.html

carla disse...

A minha terra não me tem há 15 anos.
E eu tenho saudades das coisas que ela tem.

Sem R.E.D.E. disse...

A minha Terra tem um bairro chique, com casas para alugar, porque as rendas aumentaram e as pessoas foram embora.
Jardins e parques desportivos por construir porque o construtor faliu e a autarquia não tem dinheiro.
Dois centros de saúde, com médicos a falar estrangeiro e que não chegam para todos as pessoas inscritas. Onde quem nos atende está sempre muito mal disposto e presta um serviço péssimo.
A minha Terra tem as escolas a transbordar de alunos, sem auxiliares que cheguem para tantos meninos.
A minha Terra tem meninos mal formados, agressivos para os outros, sem família à sua espera em casa.
Podem ser só os meus olhos… mas esta Terra que agora também a minha, podia ser mais bonita.

Néua disse...

Aproveitei a tua deixa e escrevi "todos os pais deviam ser assim..." mas um dia ainda escrevo o da minha terra ;)

Paula disse...

a minha terra não tem nada disso. tem sol. não se cumprimentam vizinhos, quanto muito com um pequeno bom dia. e ainda bem! gosto assim. podia viver em qualquer lado, mas gosto do facto de na minha terra, só encontrarmos alguém conhecido se previamente combinarmos.

Filipa Garcia disse...

Aceitei o teu desafio e escrevi um texto com as características da minha rua!! Bjs
tachospanelasecacarolas.blogspot.pt

xtnb disse...

A minha terra é Lisboa e tem uma "Rua Triste-Feia".

Mas agora estou a morar numa aldeia. A minha aldeia tem ruas com nomes de ilustres conterrâneos, e todos os filhos da terra que morreram na guerra têm uma rua com o seu nome. Tem uma igreja lindíssima, que em antanho se chamava Ermida. Todos se dizem bom dia e boa tarde, o que me leva a hesitar sempre que regresso a Lisboa, onde a boa educação é creepy. Não tem bombeiros, nem médico, nem polícias, mas voltou a abrir um talho (em contagem decrescente para soçobrar, como os outros, à concorrência do hiper a 15 km). Tem um campo da bola, onde, conta o ti'Carlos do café, brilhava, em tempos, o meu pai. Tem... tanta coisa, tanta gente, por entre tanta ausência, de gente e de arte. É a terra onde me reconciliaria com quem me fez filha e neta, se algum dia me tivesse zangado. É onde volto a ser menina, e não apenas por me chamarem "menina".

Tem, tem vida, a minha aldeia. Tem toda a vida da gente que vive do campo, dos homens que chegam depois das cinco ao café, sujos e cansados de terra, das mulheres que saem de madrugada para a conserveira, dos meninos e meninas que enchem as ruas de risos e brincadeiras depois da escola. E tem toda aquela vida fantasma, mas fantasma boa, de todos os antigos que nos fizeram primos e compadres, sentados com os velhos em bancos corridos à porta das casas, ou às janelas, a ver quem passa - sei que estão lá porque, por mais que voltem a alcatroar as ruas da minha aldeia, há sempre uma fresta por onde espreitam as velhas pedras por onde passava o carro de bois do meu avô :)

R. del Piño disse...

A minha? Deve ser a mesma que a tua. :-P

Ou então não: porque as terras são todas iguais.

Turista disse...

E eu conheço tão bem a tua terra e estive a ler as tuas palavras e fiquei pra'qui tão enternecida!
Eu já fui tão feliz na tua terra, minha querida Pólo!
Beijinhos grandes. :)

Cláudia Serra disse...

A minha também é assim.. e o velho rebarbado é o meu avô! :S

Kelle disse...

Não resisti e tive de fazer um post deste género :) http://chama-sevida.blogspot.pt/2013/03/a-minha-terra-tem.html

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