sexta-feira, 24 de outubro de 2014

J.



Guardo, religiosamente, as cartas que me escrevia. Em papel especial com as letras desenhadas milimetricamente, sempre com aquela caneta específica. Sempre preta.
Nunca mais ninguém me escreveu assim. Nunca mais fui, aliás, assim: a pessoa que lia aquelas cartas. Hoje leio-as de uma forma diferente: crítica, analítica, sedenta da correcta interpretação. Naquele tempo lia-as apenas com o coração. 
Amei-o cedo demais. Em silêncio e num torpedo, como se devem amar os amores adolescentes. Depois veio a vida e a idade adulta. A racionalização e a amizade. O certo e o errado. O óbvio e o lógico. A intelectualização. Amei-o (novamente) tarde demais.
Connosco sempre pesou a questão de sermos demasiado iguais. Só que ele era mais velho e queria-me ensinar todas as respostas que eu queria descobrir sozinha, no meu tempo. Rectifico, connosco sempre foi uma questão de tempo. Ou de falta de tempo. Nunca os nossos relógios se acertaram pelo mesmo meridiano. 
E eu deixei-o, no tempo futuro dele, a contemplar o seu passado que era eu, afinal. Acreditei, durante muito tempo- anos talvez- que um dia nos encontraríamos numa qualquer estação de comboio. Éramos os companheiros ideais de viagem: não queríamos saber do destino, só de partir. Encaixávamos exactamente num banco de dois. Os ombros largos dele tinham o tamanho certo para a minha cabeça pousar. Mas nunca, nunca, conseguiríamos apanhar o comboio, sei-o hoje.
Em boa verdade, andámos durante anos desencontrados na mesma estação de comboio (talvez o Rossio, sim): o Rossio. Ele deslizava no tapete rolante e via-me passar- sempre no sentido oposto- mas nunca conseguimos vencer a forma do maldito rolamento da passadeira; quando a intuição nos dizia para voltarmos para trás. Nunca esperámos um pelo outro, embora sempre tenhamos caminhado na mesma direcção: sinto-me um vector cuja seta o feriu sem querer.
Não sabíamos quão efémero é tudo. Quão perene é a assimétrica existência das palavras face à doce brutalidade do toque. 
Afinal, as viagens têm horários marcados e a vida não espera que as pessoas acertem os seus relógios para poderem, enfim, embarcar. Ficam as cartas, as palavras e as memórias. A tinta preta que o tempo não consegue apagar. A recordação de uma aurora boreal que pintou para mim. Um apito doloroso de um comboio a partir.
E hoje, finalmente, a aceitação pacífica do final feliz, não para nós, mas para ambos individualmente.
"Ama o impossível porque é o único que não te pode decepcionar". Sempre o soubemos bem.
Aprendemos com a vida.
Deixei de o amar no tempo certo.
Enough. Enough now. 

8 comentários:

Kelle disse...

E quem fala assim não é gago! Há por aí muito relógio por acertar e muita viagem que se perde à conta disso mesmo!

Miss Pippa disse...

E dá mesmo para perceber que um dia o amaste muito.

Riuta disse...

E se aos 16 anos já lesses as cartas de uma forma "crítica, analítica, sedenta da correcta interpretação" e só um bocadinho com o coração? Seria muito mau?

Pólo Norte disse...

Riuta,

Aos 16 anos, mesmo que se ache que se lê dessa forma, a verdade é que se lê SEMPRE com o coração! ;)

João disse...

Citação de Vergílio Ferreira, da obra Pensar.
convém referir pode alguém gostar muito da frase. assim já não fica na angústia de não saber de quem é. como quando se ouve uma música nova na rádio sem saber quem é.

João disse...

citação de vergílio ferreira, da obra Pensar.

Tânia Jorge disse...

tão bem escrito, tão parecido á minha historia! História já resolvida e eu sem me resolver! também tinha 16 anos..

Tão bonito este texto! parabéns :)

TJ

princesa disse...

A minha história foi aos 18 anos e diz assim...

[Não sei muito bem porque ainda me preocupo. Já percebi porque a tua vida é um vazio. Não é que às pessoas não se preocupem contigo. Antes prolongado, tu é que não te interessas. Manifestas uma total frieza perante o carinho que têm por ti. Deus sabe o que te queria ajudar, o que teria feito pela tua felicidade. Tu procuraste-me, desenterraste-me e recusaste a minha ajuda.
Será suficiente amar? Bastará respirar? Viver? Morrer? Sinto que salvaste o meu corpo mas a minha alma desfez-se em sangue naquele fatídico dia. A minha alma morreu naquele sábado.
Acho que estou a desperdiçar a minha vida com aquilo que jamais viverei, te direi. Desculpa por tudo, mas tentei ser tão perfeito porque sei que merecias.
Se eu pudesse dizer o quero. Se pudesse ver o que quero ver.
Até um dia destes.
Até lá as minhas asas proteger-te-ão.]

Também foi escrita a tinta preta, mas o dia nunca chegou e a história nunca se resolveu...

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