terça-feira, 29 de novembro de 2016

Um dia histórico na nossa história

A Ana a rodopiar na sala vazia. Dança, canta, gira sobre o próprio corpo num movimento de rotação de felicidade e de translação de euforia. 
A Ana a abrir a porta dos armários, e ver se cabe lá dentro, a cantar alto para ouvir o eco na casa (ainda) desabitada, vazia de nós. Não há electricidade nem água nem gás, é de noite e acabámos de abrir esta porta pela primeira vez, ainda não conhecemos o truque das chaves da porta da entrada, não decorámos o código dos portões, é tudo estranho e fascinante, desconhecido e uma descoberta. 
Não acreditamos- ainda- que temos paredes por preencher com objectos nossos que contam a história de nós, candeeiros por pendurar e cantos por descobrir, um pátio para a Ana andar de bicicleta à vontade, janelas bonitas para colocar vasos ao sol. 
A casa está vazia, tão diferente da última que vimos uma casa nossa vazia, esvaziada por ladrões, eu com a Ana ao colo com um mês de vida, o choque de veres espaços vazios no lugar dos objectos que compraste com tanto esforço, tanto trabalho, tanto suor. O desalento de teres que começar tudo de novo, voltares à estaca zero, teres que superar a sensação de violação, de revolta, de profunda raiva e nojo.
 Esta casa está vazia mas está cheia de sonhos, de planos, de projectos, de desejos e de projecções. Está a abarrotar de todas as possibilidades do Mundo. 
Connosco nada foi fácil. Não herdámos casas, não temos pais ricos, não tivemos logo acesso ao crédito, somos filhos da crise, conterrâneos dos bancos a falir, geração à rasca que aprendeu na base do desenrasca. Uma casa para dois primeiro. Tinha tudo para ser para três. Depois o assalto e uma casa de S.O.S., uma casa de emergência já para três, uma casa provisória que o foi menos que o desejaríamos. 
A vontade de termos uma casa não para três mas dos três. A primeira visita a esta casa, a sensação de estar em casa, o sentir de boas energias, a compulsão para um "aqui vou ser feliz". A Ana a rodopiar na sala a dizer "Estou tão emocionada!", a excitação nos seus passos a correr, o entusiasmo no seu tom de voz, o brilho nos seus olhos. 
Nós a assinarmos a escritura, adultos,crescidos, proprietários. A rubrica com o sobrenome que herdei do meu avô, ter um impulso e depois lembrar-me que não lhes posso ligar para contar a novidade (e ainda lhes sei os números de cor), ligar à minha mãe, tia, sogros. Apertos de mão, entrega das chaves, dos códigos que um dia saberemos de cor. 
Entrar na casa ainda às escuras e sentir que connosco os três está cheia, infinita, plena de luz. A Ana continua a rodopiar na sala vazia. Dança, canta, gira sobre o próprio corpo num movimento de rotação de felicidade e de translação de euforia. 
"Abraço de família"- pede-nos. Baixamo-nos e sentamo-nos todos no chão. Num abraço, um único desejo comum: aqui vamos ser felizes. 
Bem-vindos a casa. Vamos rodopiar contigo, Ana. 
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